Autópsia de um corpo verbal

Vencedor do Prêmio Jabuti no ano passado, Corpo de festim, de Alexandre Guarnieri, ganha uma nova edição pela Penalux.

Na antologia poética, o escritor e historiador da arte carioca se ocupa de vasculhar as múltiplas possibilidades da substância verbal, propondo ao leitor deitar os olhos sobre um tipo de autópsia, uma dissecação frontal.

O livro de Guarnieri é um corpo exposto, seccionado e escavado de suas partes robustas e mínimas – invisíveis -, sendo essas ausências preenchidas por abstrações poéticas, poemas-orgânicos que reconstroem a pele, a carne, os ligamentos, as secreções e o ossos através de um léxico cuja função é (re)significar a matéria.

Dividido em três seções: “Darwin não joga dados, Mallarmé sim”, “Corpo-só-órgãos” e “Vigiar e punir”, o volume empreende uma viagem cujo ponto de partida é a centelha basilar para a gestação da vida, o átomo e o carbono nadando oceanos e transmutando barbatanas em membros inferiores e superiores, no arrastar-se do ser inacabado rumo à terra firme, o primeiro passo da humanidade.

Guarnieri constrói uma odisseia em que versilibrismo é a argamassa de fundação para conjuntos complexos de opiniões e ideias, da teoria da evolução ao teologismo.

O homem é o centro do mundo, o centro do poema. E, para representá-lo em todo seu intenso sistema biológico, patológico, é preciso desconstruí-lo, esboroá-lo assim como a métrica (ou a resistência desta) e a rima, reinar o fator imagético sobre a linguagem.

Tudo que vive, pulsa, suspira e goza evolui para um fim, o destino que aguarda a carne se decompor e os versos transformarem-se em algo distinto que, mesmo assim, é poesia.

“quais das horas vividas permitiria, limpa, cristalina, uma só plataforma/na memória? declararia o último suspiro de toda a obviedade da vida?”, questiona os versos de “+ necropsia +”.

O óbvio da vida está na capacidade de compreender cada objetivo particular como uma peça inestimável do autor. Contudo, não a materialidade deste, mas o afeto que carrega, toda a substância sentimental que lhe dá um nome e, por conseguinte, propriedade.

***

Livro: Corpo de festim

Editora: Penalux

Avaliação: Muito bom

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