Pequenos retratos do regime militar

Você vai voltar pra mim é composta por 28 contos situados entre as décadas de 60 e 70. A coletânea tem como argamassa literária o drama dos sequestrados e torturados políticos, a contaminação dos dias daqueles que se opuseram ao regime, (re)agindo em clandestinidade.

Diante de K., romance reconhecido pela força trágica, a seleta de histórias curtas não irradia a mesma impacção, sobretudo por conta da pluralidade, de filtros com que Bernardo Kucinski deslinda alguns desses episódios, concedendo espaço para a ironia, o humor, a entrega de artimanhas e corrupções que muito esclarecem o país em que vivemos hoje. Bastam as leituras de “A visita do inspetor-geral”, “Dr. Carlão” e “A lista”, para se atestar que, cinco décadas depois, a democracia também serviu à imoralidade.

Outros contos, a exemplo de “A negra Zuleika”, mostram agentes de tortura sem a máscara psicótica, em atitudes desvalidas do comportamento sádico, trazendo à tona a expressão “banalidade do mal”, criada pela filósofa alemã Hannah Arendt, ao descrever o criminoso de guerra Adolf Eichmann, responsável pelo extermínio de milhares de judeus, como um homem comum que cumpria caninamente seu dever.

Há ainda aqueles que se valem de casos emblemáticos como catalisadores da ficção, tal qual em “A troca”, onde a lista de presos políticos a serem libertados/exilados, divulgada por um grupo que sequestrara um cônsul, provoca tensão entre companheiros de um pavilhão penitenciário.

Não obstante, são novamente os relatos de dor, de inquietação, do luto de famílias arruinadas pela desaparição, dos lamentos sufocados nos porões dos departamentos de tortura que perturbam, que causam, da imersão na leitura, asfixia.

Reprisando os momentos mais pulsantes de K., “Sobre a natureza do homem”, “Você vai voltar pra mim”, “O velório” e, especialmente, “Joana” mostram as terríveis sequelas das barbaridades cometidas pela máquina de repressão, a vilania que prevaleceu (e foi apoiada) durante a ditadura.

O choque cabe aos fatos, mas não há dúvida de que a qualidade da prosa econômica, desprovida de panfletos e acusações, é o que torna as obras elementares na bibliografia sobre o regime militar.

A brevidade é suficiente. Existe a história. E será justamente a história que comprovará que os livros de Kucinski são um marco na literatura brasileira

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Livro: Você vai voltar pra mim

Editora: Cosac Naify

Avaliação: Muito bom

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