O livro enquanto quebra-cabeça

Há algumas maneiras de se ler Fim de festa, de Renata Wolff: como um volume de contos, um romance polifônico, uma novela que sofre intromissões de histórias paralelas, uma coletânea que encontra unidade num diálogo entre suas narrativas.

Seja qual for a forma escolhida, não restará dúvida no leitor de que se está diante de uma autora com um plano literário. Em sua estreia, Wolff demonstra controle admirável sobre a dinâmica de seus textos, apostando na contenção como dispositivo de potência.

Assim, temos uma economia que resulta em diálogos precisos, numa prosa ágil (porém refinada) e na clara execução dos temas eleitos. Estes, aliás, cujos componentes narrativos se conectam, de forma literal ou simbólica, ao título. Todas as histórias ocorrem depois de uma festa ou de aquilo que a expressão possa representar; o fim de um relacionamento, a celebração do nascimento, a cerimônia do adeus.

“Vício”, que abre a coletânea, concentra-se no momento em que um casal se despede, pois um deles irá se casar com outro. A cena é constituída basicamente pelos movimentos dos personagens, marcando a tônica com a qual a autora irá conduzir seu livro: pelo privilégio da ação. Ali existem, num recorte de tempo que avança sem quase nunca se virar para trás, e ali se encerram.

Em seguida, temos “Buquê”, narrativa que pode ser encarada como a coluna cervical da coletânea. Numa festa de casamento (talvez a da personagem do conto anterior?), Sérgio, um funcionário público quase aposentado, conhece Carolina, uma travesti “com olhos de mulata quase índia”, e dali engatam um namoro que irá se desdobrar em mais cinco contos. A autora investe na interação dos opostos, com uma leveza cativante, colocando os personagens em situações prosaicas nas quais a diferença de idade e a igualdade de sexo servirão de prova para o amor.

A matéria principal de Wolff são os encontros, as relações humanas. Os sentimentos (ou o vazio) surgem da ruptura proposital ou da casualidade que levam duas pessoas a compartilharem alguns minutos ou alguns anos. “Café da manhã” tem partida na lembrança confusa da noite anterior, em que uma garota desperta no apartamento de outra. Na sutileza de pequenos diálogos, elas vão se reconhecendo e descobrindo que as diferenças são aquilo que as atraem. “As duas, deitadas lado a lado, a cabeça de uma junto às pernas da outra. A iluminação no teto. O silêncio entre elas, o silêncio em tudo”.

“Mergulho”, o fluxo contínuo de uma digressão, parece um ponto fora curva, daí vem “Madrugada” e, num tom tolo de conversa, surge uma pista de que a história de Sérgio e Carolina não é a única a se perpetuar pelo livro. Há, em seu limite paginado, planos narrativos que, em dado instante, igualam-se, proporcionando o contato de personagens que, até então, pareciam viver realidades completamente distintas.

É o caso do excelente “Névoa”, em que um homem e uma mulher iniciam uma discussão na cabine de um carro, impossibilitados de seguir adiante por conta da falta de visibilidade, por conta do desconsolo de uma dor eterna. O que veio antes e o que virá depois se compaginam àquele momento de tensão, à resolução da cena. É preciso atenção para não deixar passar os detalhes, conectar os pontos, ainda que a distração não prejudique em nada a leitura.

Em seu debute, Wolff propõe um jogo de camadas que revela a densidade de seus contos e, quando associados, torna o tempo com eles ainda melhor. Algo raro para um autora que pode ser, ao mesmo tempo, reconhecida como uma promissora contista ou uma romancista.

***

Livro: Fim de festa

Editora: Terceiro Selo

Avaliação: Muito bom

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