Um experimento chamado Machen

O problema da literatura de gênero é limitá-la a um grupo de autores e, portanto, limitar o próprio gênero. Quando se fala em histórias de horror, por exemplo, logo vêm a lume os nomes de Mary Shelley, Bram Stoker, Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e, mais recente, Stephen King.

O galês Arthur Machen é um autor que permanece à sombra. No Brasil, apenas o romance O terror tinha sido editado, em 2002, pela Iluminuras. Machen e sua obra, no entanto, são cultuados entre aqueles a quem se direciona o culto.

No célebre ensaio “O horror sobrenatural na literatura”, escrito nos anos 1920, Lovecraft já creditava aos textos de Machen o poder de abrir novos caminhos para uma forma literária: “Entre os criadores modernos do terror cósmico elevado ao seu mais alto rigor artístico, poucos podem ser comparados ao versátil Arthur Machen, autor de uma dezena de narrativas curtas e longas em que os elementos de terror oculto e ameça sinistra alcançam uma essência e um realismo incomparáveis”.

Porém foi com o lançamento de Revival, um dos romances mais recentes de Stephen King, que o nome de Machen voltou com força. O livro é dedicado a um grupo de autores que o escritor norte-americano diz ter pavimentado sua ficção. Entre os quais, Mary Shelley, Bram Stoker e Arthur Machen, cujo conto O grande deus Pã, nas palavras de King, “assombrou-lhe a vida toda”.

Mas o que haveria de tão aterrador na história, escrita em fins de 1800, para manter essa forte impressão no mestre contemporâneo do terror?

Numa edição caprichada, com cuidadosa tradução de Chico Lopes, a editora Penalux oferece ao leitor brasileiro a resposta à altura devida. Estruturada em oito capítulos, que se articulam também como breves contos situados num mesmo plano narrativo, a trama tem início com um experimento.

O Dr. Raymond, entusiasta da medicina transcendental, convida o amigo Clarke para sua casa na vastidão das montanhas, a fim de testemunhar uma cirurgia na qual irá provocar uma ligeira lesão na massa cinzenta de sua criada Mary, com quem também se relaciona amorosamente.

O objetivo é afastar da visão da jovem “as sombras que escondem o mundo real de nossos olhos”, erguer o véu e contemplar o deus Pã. Segue o operação, na qual a liberação de odores provoca um tipo de alucinação de onde irrompe um ser “nem homem nem animal, nem vivo nem morto, mas a mescla de todas as coisas”. Ao despertar, porém, Mary se comporta de maneira bestial e, por conta do que viu, enlouquece.

O decorrer da trama acompanha o esforço de Clarke em decifrar o que ocorreu, agora assaltado por uma série de acontecimentos sinistros envolvendo uma misteriosa mulher. Entre descrições de uma criatura na floresta semelhante a um fauno, suicídios e outras mortes inexplicáveis, Machen vai construindo uma atmosfera densa de suspense incitada por um enigma que parece frouxo, mas se cultiva em detalhes. Desse modo, o leitor se percebe encarcerado naqueles limites paginados que conservam a revelação desconcertante nas últimas linhas.

De volta ao ensaio de Lovecraft, o autor condiciona o atrativo de O grande deus Pã ao jeito como é contado: “É impossível descrever o crescente suspense e horror que impregna cada parágrafo. O melodrama está presente, e as coincidências abundam a tal ponto que nos parecem absurdas; mas esses pormenores desaparecem na maligna feitiçaria da história, e o leitor sensível conclui a leitura com um deleitável estremecimento”.

Era assim há quase 100 anos e continua até os dias de hoje.

***

Livro: O grande deus Pã

Editora: Penalux

Avaliação: Muito bom

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