Fantasmas dentro de outros fantasmas

Há uma visão romântica de que escrever um livro é lançar luz sobre uma ideia. Contudo nem todas as histórias ocorrem sob a égide do alvor. Há enredos que nascem e ganham forma entre o desmaio vespertino das horas e a total desclaridade. Há autores que necessitam se acolher na madrugada alta e esquadrinhar a escrita feito noctâmbulos de uma literatura que viceja na sombra da própria sombra.

Em A instrução da noite, Maurício de Almeida opta pela travessia de um território umbroso. O romance é um corte de dois tempos. O desenrolar cronológico das horas mais escuras de um dia e um passado que se arremessa com brutalidade contra este presente, causando uma permanência atordoante, um desmantelamento temporal onde as lembranças coexistem com o imediato.

O motivo dessa fratura é o regresso imprevisto de um pai à família que abandonou igualmente sem explicação. O abalo do reaparecimento desata um fluxo caudaloso de sentimentos desenterrados, o afogamento numa mágoa nutrida pelas consequências incontornáveis daquela ausência e, ademais, da dúvida sobre a real motivação do retorno muitos anos depois de completa incomunicabilidade.

Ao filho cabe a condução da trama. Um homem moldado por privações, obrigado a abrir mão da própria vida para responder pelos deveres do pai. Nele está a consciência narrativa. Uma voz dotada de uma inflexão sufocada, sufocante, que tentando ser ouvida por Teresa, a irmã que há tempos fugiu de casa, faz dessa impossibilidade o álcool para enfrentar o caos que se estabelece dentro de si.

É dessa jornada anímica, incursionando por entre resgastes da infância e escombros do esboroamento familiar, que o personagem compõe um retrato doméstico onde todos são “fantasmas que não se resolvem com a morte e tentam aplacar o ressentimento assombrando-nos uns aos outros”.

O pai constituído de uma “espécie de força inescapável” ao redor da qual todos orbitam contrariados, envolvidos por um estado de tensão. A mãe apática, de uma nulidade doentia, como que partidária do alheamento. A irmã Teresa, pela qual o narrador guarda um misto de inveja e afeto. E Alice, a esposa, que devaneia sentidos para uma existência solúvel feito a chuva persistente que singra a noite.

Tocando-os de maneira física e subjetiva, o personagem caminha por esse espaço que abriga outros e os desaparece, sendo ele próprio um estrangeiro dessa condição, um espectro incapaz de traduzir suas ações diante do inesperado reencontro, da nova porta que se revela disponível e oferece uma chave de muitos dentes, uma chance para seguir o curso da nova manhã ou se manter no rumo insone do ontem eterno.

Maurício de Almeida, que venceu o Prêmio Sesc de Literatura de 2007, com a coletânea Beijando dentes, retoma uma temática que tencionava alguns daqueles contos, na qual a relação entre entes familiares incorria de situações e de sensações adversas, do desalento à melancolia. A prosa seca e fluente, mobilizada por uma tessitura singular, inventiva, formada por intervenções e comentários incidentais, recebe um cuidado especial, maduro, uma preocupação pelo requinte das palavras e o encaixe das frases, atingido, assim, a densidade poética, uma beleza imprópria.

Pois, se para o leitor se torna irresistível o ritmo e a força do relato, o romance explora o mais elementar dos conflitos humanos, o drama patriarcal em que, de modo simbólico ou não, o filho é levado a assassinar o pai para encerrar um estágio preliminar da vida, vencer o duelo com seus medos, suas angústias, suas frustrações, escorado por uma perspectiva de mundo igualmente pueril e adulta. Tramas que se tornaram referenciais nas literaturas de autores brasileiros como Raduan Nassar, Osman Lins e Lúcio Cardoso.

No entanto, as semelhanças param na preferência do tema. Maurício de Almeida não é um imitador, longe disso. Tem uma voz singular e potente que, mesmo no segundo livro, já deixa uma marca, o reconhecimento de um estilo próprio, inconfundível. Um escritor que imprime em suas páginas uma rutilância artística, mesmo ao se embrenhar na mais profunda escuridão.

***

Livro: A instrução da noite

Editora: Rocco

Avaliação: Muito bom

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