A memória como motor narrativo

No conto que abre O que não existe mais, de Krishna Monteiro, um filho rivaliza o espaço da casa com o pai morto, sendo ele próprio um fantasma do seu tempo. Por mais que tente manter os pés no presente (“Encerrado, ponto final, tu não existes mais”, sentencia), há um liame irrompível com o passado, um esganamento emocional que se derrama por todo o ambiente e por todas as suas relações com os objetos ao redor.

A pequena coletânea, que marca a estreia do autor paranaense, tem como matéria a impossibilidade. (“Onde estão todos?” Não estão, eu te respondo. Não existem mais, eu te proclamo”). Em seus limites paginados, há uma busca (inútil) por um ajuste de contas com o que passou, um enlace com o intangível que endereça ao plano narrativo as experiências vividas, as aragens do sonho.

Todos os personagens agem como que reféns de uma existência insidiosa, diante de portas que se abrem para outras portas, um circuito infinito. Pois, ainda que decididos a encontrar uma saída, a procura é a chave que os trancam no calabouço da memória, num âmbar consistido de rancor e saudade.

Dessa maneira, o leitor tem a sensação de embarcar em histórias em pleno andamento, cujas partes preliminares nunca serão reveladas. É justamente aí que se prende o fio mestre da tessitura de Krishna: no auge da tensão do instante, no estágio em que se atinge o arco da curva.

É o que se constata em “O sudário”, no qual o narrador tenta dissuadir um outro personagem a soltar o revólver que mantém em riste. O conselho (ou súplica) vai se desdobrando em divagações, num desvio do centro temático para a periferia da trama até, mais à frente, retornar para o ponto de onde partiu. Krishna se debruça na captação do movimento; a perícia dos mínimos avanços, o olhar milimétrico.

Com isso, a prosa alcança um detalhismo admirável e expõe o trabalho de um autor que encontra a medida certa entre domínio técnico e fluência poética. Há uma nítida preocupação em esmerar as frases, despertar um ritmo entre as palavras que se transparece no texto em arroubo linguístico. Tanto ao focar a relação tortuosa entre um avô e um neto afastados por conta de desatamentos familiares, no belíssimo “Monte Castelo”, quanto ao desfilar as rememorações de um galo de briga, em “Quando dormires, cantarei”, que, por sua vez, traz à lembrança o romance Timbuktu, do norte-americano Paul Auster, narrado sob o ponto de vista de um cão vadio.

São esses procedimentos que mobilizarão toda a coletânea, concatenando cenas que transitam entre o tempo corrente e as reminiscências dos personagens, para culminar em “Alma em corpo atravessada”, que encerra o livro. A narrativa trata da memória de uma história que acaba por se derramar e se confundir com a história em si. O que é verdade, o que é invenção? Com diz uma frase de Clarice Lispector, usada como epígrafe: “Escrever é tantas vezes lembrar do que nunca existiu”. Por certo, nos contos de Krishna Monteiro, há muito do que lembrar.

***

Livro: O que não existe mais

Editora: Tordesilhas

Avaliação: Muito bom

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s