A sala escura da memória

Em A resistência, o paulista Julián Fuks escreve o fracasso, a impossibilidade de recontar a memória em plenitude. Seu romance recente intenta examinar o próprio enredo familiar, a partir da reconciliação com a infância, com o fato de ter um irmão adotivo.

Filho de intelectuais argentinos, que nos anos 80 se exilaram no Brasil por conta da perseguição política do regime militar, o autor, eleito pela revista Granta um dos melhores jovens escritores brasileiros, cria uma duplicidade ao se colocar como agente de duas épocas, narrando e, ao mesmo tempo, participando de um drama que é um eco da história devassada de um país, dos atos de combate à repressão e dos choros incontidos dos que procuram incansavelmente seus desaparecidos.

Esses deslocamentos entre o passado e o presente encontram sintonia na subjetividade, no esforço de resgatar, no movediço da consciência, um rastro de sentimentos que possa atestar que se avance pelo terreno da verdade e não pelo da invenção, que a verdade, ao menos, prevaleça na maior parte.

Não é tarefa das mais simples, todavia, pois a memória é também um segredo guardado no mais fundo, uma sala escura que, iluminada espasmodicamente, dará conta de que observar este irmão é também observar a si mesmo, é desvendar os motivos que levaram um jovem, ao se saber adotado, decidir se subverter à lógica da família que o criou, como aqueles que o criaram se subverteram anteriormente à lógica do regime ditatorial.

Da conversão da matéria autobiográfica para matéria literária, Fuks constrói um relato labiríntico, consubstanciado por um rigor com a linguagem, a descoberta de uma prosa potente e delicada, que impacta e comove ao arrastar o leitor para essa busca, esse acerto de conta com uma dúvida, proporcionando um encontro com a literatura superior que captura um espírito do tempo, que compõe uma obra-prima da nossa geração.

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Livro: A resistência

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Excelente

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