Um clássico moderno do horror

Numa comparação questionável mas que dá a dimensão exata de seu emprego, é como se todos os álbuns do Nirvana tivessem sido lançados por aqui, exceto o Nevermind. Pois é justamente isso que Hellraiser representa para a carreira de Clive Barker: a potência de um Nevermind.

Publicada originalmente em 1986, a novela The hellbound heart não despertou, na época, atenção maior que a dos contos do Livros de sangue, a coletânea composta por seis volumes com a qual debutou o escritor inglês. Foi somente um ano depois, com a adaptação para o cinema, escrita e dirigida pelo próprio Barker, que a história cresceu em festivais, ganhou o mundo e sagrou-se um dos melhores filmes de terror de todos os tempos.

Vivia-se o auge dos slashers movies, e Hellraiser renovou o gênero ao apresentar uma mitologia baseada na associação entre dor e prazer, emprestando do sadomasoquismo uma versão de inferno regida por Pinhead, cujo impacto visual o tornaria um dos personagens mais icônicos do cinema.

A medida do sucesso está na frase cunhada pelo escritor Stephen King, ainda nos anos 80: “Eu vi o futuro do terror, seu nome é Clive Barker”.

E King não poderia ser mais preciso em seu vaticínio. Uma dezena de livros depois (alguns deles bem melhores; voto em O jogo da perdição), adaptações cinematográficas e outras expressões artísticas, Hellraiser segue inexcedível e inesgotável na carreira de Barker: derivou mais oito filmes, foi transposto para os quadrinhos e para os videogames, inspirou um documentário e esteve em negociações para virar série de tevê.

Mas o que justificaria, afinal, a fama duradoura dessa pequena história?

O primeiro ponto seria a inventividade. Barker parte de um enredo doméstico para configurar a passagem para um mundo inteiro de possibilidades (e isso é bastante explorado nas continuações do primeiro filme, de maneira satisfatória ou não). A chave (ou o Macguffin, um termo do cinema) é a caixa de Lemarchand, um puzzle que “contém maravilhas”, pois, ao ser desvendado, promove o acesso a uma experiência sensorial inigualável.

Daí surge o segundo ponto: os Cenobitas. Os “teólogos da Ordem de Gash” que dominam a dimensão evocada pela caixa, migrando dos “recessos mais alto do prazer para expor suas mentes eternas a um mundo de chuva e fracasso”. De maneira fria, é uma nova espécie de criaturas, cuja aparência consegue, como em raríssimos casos, definir (ou reslumbrar) suas motivações. A aparição de Pinhead, por exemplo, não deixa dúvida de que se está diante de uma figura imponente, que serve ao único propósito de causar dor. Ou prazer, ao gosto.

Por fim, salta aos olhos o requinte da prosa de Barker que, se profícua na riqueza dos detalhes e das descrições, também o é na abundância de frases de efeito que beiram a pieguice e do hiperbolismo linguístico; ambos imprescindíveis para a literatura do gênero de horror.

Uma metáfora para o adultério e para a Aids

A narrativa acompanha a chegada do casal Rory e Julia à uma velha casa, herança de família. Os dias de mudança vão revelando, pouco a pouco, o desagrado da esposa em relação à morada e ao próprio casamento, sobretudo por guardar em segredo um encontro íntimo com o cunhado Frank, cujo paradeiro é desconhecido. O que o leitor sabe é que Frank adquiriu recentemente a caixa de Lemarchand e a abriu dentro da casa. Quando Rory corta a mão e o sangue pinga em bicas sobre o piso de um dos cômodos, os demônios do passado (literalmente) vêm à tona.

Vale salientar que Hellraiser não é uma história de medo, é uma história de sangue. E pensar desta forma, é enxergar outra interpretação para o livro: a da analogia. Pode bem ser uma metáfora para o adultério bem como para a Aids; a história foi escrita no auge mundial da epidemia.

O lançamento tardio no Brasil torna irresistível a comparação com o filme. Da novela para o roteiro, Barker acerta nas mudanças mais significativas, tais quais a conversão de Kirsty (amiga de Rory, no livro) em filha de Larry (nome que Rory ganhou, na adaptação para as telas), e a valorização do processo de renascimento de Frank. Por outro lado, a trama paginada guarda boas surpresas, como o fato de os Cenobitas exalarem um odor de baunilha para camuflarem seus cheiros reais, e uma espécie de prelúdio no qual Frank tem seu primeiro encontro com as criaturas.

Barker é um arquiteto de mundos em potencial (vide alguns de seus livros posteriores: A trama da maldade, Raça das trevas, Imajica e os juvenis O ladrão da eternidade e a série Abarat), sendo Hellraiser a pedra fundamental. Tal vigor imagético advém de seu trabalho visionário nas artes plásticas, alguns destes inclusos nesse que é o melhor trabalho editorial da Darkside. Desde a excelente tradução de Alexandre Callari, a capa simulando couro, a brochura, as pinturas nas faces internas da capa e da contracapa demonstram um respeito para com os fãs que aguardavam o livro fazia três décadas. O fato ainda de a edição brasileira não trazer qualquer informação sobre o enredo é de uma sacada das mais memoráveis.

No início do ano passado, alegando desacordo com os rumos que a franquia Hellraiser tomou, Barker lançou The scarlet gospels, romance em que volta com o icônico personagem Pinhead, para justamente matá-lo. Torcer agora para que o livro chegue logo por aqui. Que a espera não dure novamente trinta anos.

***

Livro: Hellraiser

Editora: Darkside

Avaliação: Excelente

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