Como nos velhos tempos

Nunca tive medo de alma, de espíritos, de assombração, embora as assombrações, durante a minha infância, fossem presenças eternas nas conversas de beira de fogo, em especial no inverno, período de recolhimento, quando só saíam de casa, dizia meu avô, os loucos e os necessitados.

Das possibilidades de representação do ofício da escrita, a mais sensível é do cerzir de uma tessitura. O escritor conduzindo e alinhavando suas frases tal qual fios que irão compor o argumento, dar molde ao enredo e, por fim, armar uma malha que se entende como literatura. A habilidade no manuseio, a orientação do ritmo, selecionando as palavras adequadas e seus tamanhos para os espaços devidos, as voltas e as interligações. Ordenar o movimento e entender que o êxito está no controle dos pontos de tensão.

Isso requer experiência, contudo. Maturidade artística e mão, que se adquirem com os anos. Com uma extensa carreira, entre romances, volume de contos e roteiros, Tailor Diniz demonstra total domínio desse caráter lábil do fazer literário em Só os diamantes são eternos. Sua mais recente novela é, acima de tudo, uma aula de técnica narrativa. Levada em dois planos paralelos, a trama se caracteriza pela maneira com que o autor gaúcho aplica o sistema de compressão e de distensão para configurar cada uma das histórias.

A primeira delas diz respeito ao cabo Branco, um ex-agente da repressão que recebe a inesperada visita de um superior. Trinta anos após o fim do regime, o militar quer deixar o passado sepultado enquanto o coronel Tibiriçá (uma referência ao codinome usado pelo torturador Carlos Brilhante Ustra) pretende cooptá-lo para uma última missão. A dinâmica do texto se estabelece, portanto, num jogo de forças inclinado pelo convencimento. As frases são curtas, quase que sussurradas ao pé do ouvido, articulando um diálogo marcado por uma sobrecarga mental cujo propósito é quebrar a resistência do outro com argumentos dos mais ardilosos.

De outro modo, a segunda história recua no tempo, dando conta do trauma de Carlos Augusto, ou Guto, que cresceu no interior do Rio Grande do Sul sob a sombra do desaparecimento do pai. O tecido narrativo, mais lasso e expansivo, cobre cenas de sua vida cotidiana nos anos 1960, marcada por uma formação sentimental espelhada no comportamento lacunar da mãe e na presença sobressalente do avô. A perspectiva infantil persegue um mistério em meio a memorabilia e a episódios pessoais, menores, que tangenciam inúmeras maneiras de se achar uma resposta para a ausência. Tudo vai a longe, pouco a pouco, embora o menino parece nunca ter saído do lugar.

Entrementes, uma terceira voz, impessoal e fora das vistas, ganha sonância em reportagens de tevê de modo a selar marcos temporais. A ditadura militar é o pano de fundo, mas também uma espécie de entidade que assombra os personagens, direcionando e/ou deformando seus destinos. São os que sofreram e os que fizeram sofrer que, em determinado momento, farão com que as narrativas se aproximem a ponto de se tocar. As voltagens se equalizam e a resolução se preenche de ecos.

Diniz trabalha com uma prosa evocativa, carregada de aspectos históricos e referenciais, de forma a interconectar procedimentos diferenciados de estruturação pelo panorama que abrangem. Ainda que distantes no espaço-tempo, a maneira com que as circunstâncias se faceiam não deixa dúvida sobre a correlação dos acontecimentos e de um futuro ponto de convergência. Isso se dá também pelo componente de suspense que acompanha tanto o tal último serviço do cabo Branco quanto as andanças de Carlos Augusto. A escalada mira a revelação, ainda que o foco rastreie o drama humano para significar condutas e decisões diante do quadro geral que as mobiliza.

Um bom exemplo está numa das falas do coronel: Naqueles tempos a gente fazia e sabia por que fazia. Nem todos sabiam o porquê, mas a gente sabia. E isso era o que importava. A gente saber o porquê das coisas que fazíamos. A interpretação cobra uma complexidade e o poder de tradução de uma época, contudo a dimensão é pedestre, deixando de lado o compromisso com o contexto sociopolítico para se agarrar ao conflito individual. Assim, o texto aposta no simples e, automaticamente, destacam-se os elementos técnicos: o bom desenvolvimento, a manipulação do ritmo, o controle da tensão e os diálogos afiados.

Só os diamantes são eternos se infiltra pela psicologia de homens talhados pelo regime militar em modos distintos, em lados opostos. Um enredo produzido por uma visão entrecortada que combina realidade e imaginação para tratar do horror que permanece na memória, do brutalismo que se concentra no silêncio. Um tempo doloroso, que embora alguns tentem enterrar ou corrigir, continua a existir para quem conta de dentro a história, para quem sempre vai conviver com o vazio.

***

Livro: Só os diamantes são eternos

Editora: Folhas de Relva

Avaliação: Bom

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s