A marca de nascença

O sofrimento humano tem muito a ver com a importância que o outro tem em nossa vida, e pela maneira que nos enxergamos, a partir das relações, pelos olhos dos outros.

Escritores não costumam cunhar atestados sobre seus processos de escrita. Paula Febbe foge à regra em Vantagens que encontrei na morte do meu pai. Nas páginas finais de seu mais novo romance, a psicanalista e roteirista declara que o plano central de seu enredo é “refutar o masculino em sua mais primitiva forma”, através do relato de uma “pessoa que pendesse entre o que sente e o que não consegue sentir, por ser emocionalmente fraturada” e entender a masculinidade como “algo que pode atacá-la, e ataca, em todos os sentidos de sua vida”. Intenções à parte, pode-se dizer que a autora acerta na concepção e nem tanto na execução.

Descamando o argumento, a narrativa é conduzida pela enfermeira Débora que, de modo segmentário e elíptico, vasculha o passado para trazer à tona os traumas que definiram sua personalidade e suas atitudes no presente. O elemento catalisador da tensão, como mostra o título autoexplicatico, é o pai morto. A supracitada figura masculina destrutiva, um abusador nato com quem a protagonista se revela numa relação perpétua de repulsa e atração. Da infância à fase adulta, suas inteirações físicas e o eco fantasmagórico dessas situações serão o veio pelo qual se acessa um espaço de perturbações da psicologia humana.

Paralelo ao estudo de personagem que se obtém dessa história mental, os fragmentos episódicos que compõem os capítulos são intercalados com registros/prontuários de pacientes de um hospital que, a princípio aleatórios, mostrar-se-ão conectados quando ocorre uma reviravolta, que unifica o comentário social à matéria da ficção. Toda trama se fecha num segredo cuja chave se origina de circunstâncias envolvendo homens hediondos e o revide aos efeitos de seus atos. Mais seria estragar a boa surpresa.

Da sua formação acadêmica (talvez, da prática profissional), Febbe extrai as ferramentas para plasmar as camadas externas e internas de sua narradora. A sondagem pela experiência do vivido em sua intimidade invasiva, de modo a desvelar gatilhos emocionais e distúrbios de conduta para desenhar uma persona complexa e doentia, é bem convincente, da mesma forma que funciona o procedimento de se utilizar do contexto imaginativo para denunciar e refletir sobre a realidade da violência contra a mulher, por meio de uma coexistência ambígua. O alvo não é a penitência da vítima, mas como este estado pode se virar para a posição do agressor e, por algum sintoma, espelharem-se.

O problema está na fragilidade com que são operados alguns componentes narrativos. Falta manejo literário à psicanalista. O andamento acusa, em muitas passagens, uma incapacidade de controle causada pela ânsia de chocar, de ser detalhista no aspecto gráfico, tornando o texto apelativo e gratuito. Ora, naturalmente, no escopo de uma literatura de gênero, cabe o extremo da escala do horror, porém desatar a sanguinolência e a escatologia pela ressonância do impacto deixa o tom da cena afetado, subtraindo a marca de verossimilhança dos fatos e tornando as circunstâncias um tanto caricatas.

Em sua apresentação bibliográfica, Febbe é descrita como dona de “uma escrita brutal e bastante característica em que expõe o pior que há no ser humano, assim, na cara, sem floreios”. Sim, por um ponto de vista, tal conduta pode ser uma virtude, mas, por outro, pode ser uma falha. As reações mais primitivas nem sempre se despertam com o excesso, o explícito, a explosão de vísceras e líquidos corporais. A sutileza que reside no subentendido, por vezes, é muito mais aterradora.

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Livro: Vantagens que encontrei na morte do meu pai

Editora: Darkside

Avaliação: Regular

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