Imersões de um narrador diegético

Antes de entrar propriamente na resenha de Espera passar o avião, do carioca Flavio Cafiero, penso que é necessário divisar o significado de diegese. Mais usual ao contexto cinematográfico, diegese é uma noção narratológica, aplicada à literária pelo teórico e crítico francês Gérard Gennete, que diz respeito ao conjunto de acontecimentos narrados numa determinada dimensão espaço-temporal. Ou seja, a realidade própria da narrativa, totalmente isolada da realidade de quem a lê.

Para uma percepção mais clara do leitor, busco um exemplo no cinema (que, diante do romance de Cafiero, é bem adequado).

A certa altura do longa Solaris, na versão soviética de Tarkovski, o psiquiatra Dr. Kelvin chega à estação espacial e se depara com um cenário de destruição e enigma. Daí, ele se aproxima de um painel, aperta um botão e acende um vídeo no monitor, no qual um dos antigos tripulantes passa a relatar o que aconteceu. A princípio, o espectador vê o personagem assistindo o vídeo. Porém, quando a gravação toma a tela, essa câmera passa a ser diegética, pois sua origem é a própria narrativa ficcional.

Não há a interferência externa. O personagem surge de dentro da história, narrando a história no qual participa. Sendo assim, temos um narrador homodiegético.

Bem, divisado o significado de diegese, entramos de vez no livro para afirmar que Espera passar o avião é um romance genuinamente diegético. A estruturação e o desenvolvimento do enredo, a dinâmica entre os atores da trama, as transições temporais, a base de referências e os conflitos multifários ocorrem num espaço que pertence exclusivamente à ficção, pois tudo o que é criado parte do conceito de um plano narrativo que se constrói dentro de outro plano narrativo. Algo muito próximo da metaficção. De maneira que se institui um narrador metadiegético, aquele que introduz um personagem, mas que, ao longo dos fatos, assume-se ele próprio o narrador numa posição secundária.

O romance se inicia exatamente com uma narração em segunda pessoa que apresenta o protagonista. Diz assim: Vou te contar um troço. Senta aí. Dessas coisas que acontecem com um amigo. É, uma história. Você lança mão de um aviso desse tipo antes de contar uma. Era uma vez, sabe como?.

O amigo em questão chama-se Felipe, e essa introdução, que tem a função de síntese biográfica, deixa claro que se trata de um personagem inserido numa realidade da qual o leitor depende do narrador para ter acesso. Toda história é desde sempre, pensando bem, um fio que se emenda em outro, você puxa, não acaba, e puxa, mas nunca descobre como é que os pedaços se conectam, e no subterrâneo dos acontecimentos, minimamente costurados, irrompem na superfície em forma de historinha, prossegue.

Puxando o fio para trás, a historinha é a seguinte: criado Rio de Janeiro dos anos 80, Felipe teve a infância marcada pela morte de um dos irmãos. Anos depois, formou-se em cinema, girou pela Europa, até se radicar em Lisboa, onde conheceu a esposa, Ana. Por conta da produção do filme de um amigo da faculdade, no qual irá atuar como técnico de som, ele retorna ao Rio, numa estada que vai acordar uma legião de fantasmas afetivos, sendo a perda do irmão o mais agudo. E o fio da trama retorna ao presente.

Estética e estilisticamente, o livro de Cafiero é muito ambicioso. A volta ao Brasil é arquitetada num mise-en-scène em que o presente se mescla a recuos temporais, extraindo desse passado um tipo de composto desviante que vai se irradiar por toda a perspectiva do protagonista. O texto, que sai da segunda e assume a terceira pessoa, é constantemente enfeixado por diálogos de agentes tramáticos, bem como de personagens residuais, que habitam a memória ou uma zona nebulosa da autoindução.

Tudo é intencionalmente estranho, metido em camadas dentro de camadas, própria da história mental, sem de fato sê-la. No que tange o andamento, a narrativa acompanha o dia a dia das gravações do filme, de forma a se construir um roteiro que se confunde com a construção do protagonista, em suas falhas, seus dramas, seus pertencimentos.

Não por menos, o autor recorre a uma pulsão de referências que se relacionam intrinsecamente a essas duas esferas. Sinopses de filmes, desenvolvimento de roteiro e experiências de natureza cognitiva que servem como uma espécie de bússola (também moral) para indicar por onde ir nesse terreno movediço, variando de acordo com a fase geracional, as ondas de consciência e a condução dos acontecimentos internos e externos, de Star Wars a Solaris, de Tarkovski.

Os contrastes entre soltura e concisão visam articular essa mecânica de formação de um universo limitado de criação, onde os eixos não se mostram dispostos a resolver nada além dos conflitos iniciais (os traumas, o filme, as inter-relações pessoais), quando ocorre uma reviravolta carregada de violência, retomando a narração em segunda pessoa a qual recorda o leitor que se está diante de uma história contada. Vou te contar um troço. Senta aí. Dessas coisas que acontecem com um amigo. Lembra?

É uma jogada muito interessante, pois esse narrador revela que as peças sempre estiverem à mostra; o leitor que não teve a habilidade de enxergar, ou, neste caso, de ouvir.

A falha, porém, não cabe estritamente a um lado, pois há, aqui, um grande problema de condução. Da premissa até o desfecho, o autor pulveriza o caminho com induções a momentos à parte desse trânsito central, que congestionam a narrativa com movimentos de enredo que não levam a lugar algum; ou pior, dão a impressão de que se está avançando, quando se está acessando o mesmo ponto continuamente, ou simplesmente tergiversando.

Fica monótono, cansativo e descola a atenção em vários trechos. Confesso que me peguei perguntando, algumas vezes: Aonde isso vai levar, afinal? Por que está se gastando tanto tempo com algo que não tem tanta relevância? Reafirmo: a reviravolta final guarda uma proposta muito interessante, no entanto a leitura chega até lá tão desgastada que o impacto acaba superposto por uma sensação nada agradável de resistência.

O curioso é que autor, sob a pele do narrador, mostra-se ciente dessa condição, e usa da incapacidade dos personagens em gerir apropriadamente as filmagens como uma maneira de refletir sobre os entraves narrativos do próprio romance. Uma história é essa brincadeira de esconder e revelar, embaralhar e separar. (…) quando você se dá conta, a primeira virada veio, e a segunda vem chegando, roteirista matreiro, está querendo te enganar, os acontecimentos foram escolhidos a dedo e você nem percebeu, pontua.

Produz-se uma ideia de esgarçamento, uma compreensão mais abrangente de construção de arquétipo, proposital, calibrada, que foge totalmente do que se foi levado a crer. Um tabuleiro de pistas falsas, um prisma de ilusionismo que se reflete para fora do universo que criou, como se dissesse: Ei, você atravessou 200 páginas só para perceber que estava olhando para o lado errado o tempo todo. Não é um mau truque, caso o desempenho até a revelação fosse melhor executado.

Do ponto de vista do gênero, em que se expõem os mecanismos da produção textual, Cafiero oferece uma experiência insinuante no âmbito formal, na qual a literatura estreita-se ao cinema de modo a firmar um pacto de conhecimento e, até, de reflexão crítica. O problema está na elaboração do conteúdo, na realidade da narrativa que não cabe ao autor e ao leitor, somente aos personagens. Em certos momentos da travessia pelo espaço diegético, o romance reproduz o incômodo de um avião que parece nunca passar.

 

 

***

 

 

Livro: Espera passar o avião

Editora: Todavia

Avaliação: Regular

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