Ressaibo de uma pátria de chuteiras

Subindo o primeiro lance da escada com degraus de mármore, é possível divisar a imagem do bebê com um boné de pano sobre a cara larga, um menino bem fornido para os primeiros cinco meses – esse bebê sou eu.

A imagem é um desenho feito a lápis sobre uma folha de papel manteiga, acomodada debaixo de uma lâmina de vidro retangular que se fixa no alto da parede. É ela que recepciona aqueles que avançam para o segundo andar da casa dos meus pais.

O autor é o meu padrinho, irmão da minha mãe, que, embora fosse um mero entusiasta, reproduziu com impressionante talento os traços da minha fisionomia, os lábios levemente abertos, os olhos vagos de criança amamentada.

Durante muitos anos, esse quadro permaneceu no quarto dos meus avós, localizado no primeiro andar da casa. Depois que eles faleceram – num espaço de tempo comum àqueles que convivem uma vida inteira e se apressam para se reencontrar -, minha mãe o moveu para a sala no andar acima.

Recordo-me de ter escutado que foi a minha avó quem encomendou o desenho ao meu padrinho. Contudo não me custa acreditar que a muito gosto do meu pai.

Na imagem, o bebê está vestindo uma camisa do Botafogo. Por alguns anos, meu pai acalentou a ideia de ter um filho botafoguense, que cresceria compartilhando da mesma paixão que enroupa seu indomável coração alvinegro.

A questão é que meus pais sempre foram pessoas trabalhadoras, de modo que fui criado por meus avós. E meu avô, clandestinamente, convenceu-me tricolor. Sou Fluminense, torço pelo time tantas vezes campeão. O quadro, portanto, passou a ser uma espécie de totem para o meu pai, um símbolo sagrado de um afeto que não se perpetuou.

*

Eu nasci em 1978, poucos meses antes da Copa em que a seleção argentina eliminou o Brasil por conta do saldo de gols, naquele jogo muy sospechoso em que Passarella & Cia derrotaram o Peru por 6×0. Obviamente – e fortuitamente – não me ocorre nada daquele mundial.

Quatro anos depois, por outro lado, havia uma onda de entusiasmo que eletrizava o ar.

Tenho a imagem difusa e um tanto granulada da minha família – como de hábito – em festa. Elepês de samba, cerveja, fogos de artifício e gente fantasiada – eu fantasiado. Mas o que trago de mais caro daquele ano de 1982 está novamente relacionado à habilidade artística do meu padrinho.

Lembro-me de um varal de bandeirolas enfeitando a fachada feia da primeira casa em que moramos. Cada retângulo trazia a caricatura de um dos integrantes do escrete canarinho. Falcão, Sócrates, Zico, todos estavam lá retratados de maneira ímpar.

Por isso tanto me marcou presenciar, mais tarde, os desenhos sendo rasgados como um tipo de mau agouro. Algo próprio daquela casa insalubre, com piso de tacos soltos e teto conformado por telhas de cerâmica espessas que, anos depois, desabou, por circunstâncias estranhas não matando a todos nós.

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Hoje eu tenho 40 anos e essas recordações exumadas do manto transicional da minha memória me revisitaram, terminada a leitura da antologia 82 – Uma Copa/Quinze histórias, editada pela baiana Casarão do Verbo.

O volume, organizado por Mayrant Gallo, com assistência de Tom Correia e Lima Trindade, reúne interpretações, confissões e pontos de vista imantados pelo dia 5 de julho de 1982, em que a seleção brasileira de futebol foi eliminada do Mundial na Espanha, por um desacreditado time italiano.

Aliás, pelo franzino Paolo Rossi que decretou o placar de 3×2, batendo um time reverenciado, onze jogadores no auge de suas carreiras, um Davi toscano que, com uma funda de couro, derrubou um gigante de chuteiras douradas chamado Brasil.

O desencanto, o travo provocado pela derrota, é o eixo que conduz as quinze histórias, embora nem sempre o luto é o dispositivo que define o tom das narrativas. Conforme um bom escrete, o livro conta com diversas qualidades, táticas para o riso, o choro, o grito retumbante de gol.

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Incomum em antologias de estilos variados, aqui há uma relação harmônica entre os contos.

Fazendo uso do exercício de reminiscências, do humor ferino, do nonsense, da crônica jornalística ou mesmo tomando emprestado a estrutura da narração esportiva, os autores encontram versões interessantes para o tema, sem forçar contextualizações ou torná-lo um intruso no fluxo narrativo.

A Copa e/ou especificamente a partida contra a Itália, na Espanha, tampouco figuram como intransmutável elemento central.

Do olhar pueril que alguns escritores resgatam da infância a personagens cativantes, ao exemplo do taxista verborrágico e do sujeito que incorpora camaleonicamente inúmeras nacionalidades, o recorte trágico do tempo ora ganha a textura de pano de fundo ora é apenas sugerido, dando espaço para inspirados enredos que se substanciam, sobretudo, no arranjo familiar e na infiltração do cotidiano pelo extraordinário da circunstância.

E se no espaço narrativo a antologia se sai bem, o mérito se estende a dois golaços, digamos, fora das quatro margens.

O primeiro é a escalação de Tostão, meio-campo campeão do Mundial de 70 e hoje craque da prosa, que assina a orelha. O outro é a escolha da capa: a histórica imagem do menino com a camisa do Brasil chorando no Estádio de Sarriá, onde ocorreu a fatídica partida.

A fotografia de Reginaldo Manente, reproduzida na capa do Jornal da Tarde no dia seguinte, foi laureada com o Prêmio Esso justamente por capturar, no semblante compungido do hoje advogado José Carlos Villela Jr., a fratura do lúdico, do deslumbramento que provocava a seleção ao embarcar do Brasil rumo ao sonho do tetracampeonato.

Como aquele menino – e aproximadamente com a idade daquele menino -, quatro anos depois, nas quartas de finais da Copa de 86, era eu quem chorava atracado à grade da janela da casa de um tio, segundos depois que, na dramática disputa por pênaltis contra a França, Fernandez venceu o goleiro Carlos, enfiando a bola no canto esquerdo.

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P.S.: Quinze anos após meu nascimento, meus pais tiveram o segundo filho e, para esse, meu pai não deu brecha e o tornou botafoguense. Hoje, ele tem com quem compartilhar a paixão alvinegra, embora, mesmo torcendo pelo tricolor das Laranjeiras, eu guarde simpatia pelo clube da estrela solitária. Inclusive uma das minhas caras lembranças relacionadas ao futebol vem da conquista do campeonato brasileiro pelo Botafogo, em 1995. Mas essa já é outra história, que fica para uma futura ocasião.

 

 

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Livro: 82 – Uma Copa/Quinze histórias

Editora: Casarão do Verbo

Avaliação: Bom

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