Aventura pop-histórica pelo Brasil

O americano Amadeus Severo Flynguer mudou-se para Porto Alegre no início dos anos 1900 e, devido à sua inteligência visionária, em pouco tempo passou de mero eletricista a um dos maiores empresários do Brasil. Sua empresa, a Flynguer & Cia, fez fortuna através de importações para o setor elétrico nas regiões Sul e Sudeste do país, tornando-se sinônimo de modernidade e tecnologia e, no campo do entretenimento, de cinema – uma paixão que Amadeus transmitiu aos filhos.

Desse modo, quando Walt Disney visitou o Brasil nos anos 40, João Amadeus Flynguer, um rapazote de 18 anos “que tinha crescido dentro de salas de cinema”, convenceu o ministro responsável a designá-lo como cicerone daquele que “desenhou sua infância” e do grupo lhe acompanharia em sua passagem pelo Rio de Janeiro.

Das belezas naturais aos glamourosos cassinos, João organizou excursões turísticas pela cidade, nos quais produtores e ilustradores se pegaram maravilhados com as cores e os desenhos da paisagem (Essa cidade não parece um lugar real, parece um cenário de filme) e depois os aplicaram na concepção de seus filmes.

Desses passeios, aliás, nasceria o nosso Zé Carioca, produto da política de boa vizinhança de um Estados Unidos no auge da Segunda Guerra Mundial.

A passagem de Disney pela (então) capital do Brasil se encerrou com a première nacional do longa Fantasia, no elegante Cine Pathé (atualmente a região da Cinelândia), cuja plateia se encontrava recheada de granfinos e autoridades, entre as quais o presidente Getúlio Vargas.

A noite, o filme e a companhia do criador do Mickey seriam as lembranças mais intensas de João, mesmo depois de lutar na Itália com a Força Expedicionária Brasileira.

Não por menos, quarenta anos depois, o herdeiro da Flynguer & Cia, agora aliado aos militares que defendiam os anos derradeiros da ditadura no Brasil, no princípio da década de 80, adquire uma imensa extensão de terra em Altamira, no coração da floresta amazônica, para materializar um sonho.

Inspirado na Disneylândia e na Fordlândia (a cidade planejada, nos anos 20, por Henry Ford na mesma região selvagem), João Amadeus ergue em segredo sua Tupinilândia, um parque temático identitariamente brasileiro, com atrações variadas, animais nativos e bonecos mecatrônicos.

De acordo com o criador, “um parque onde o tema será a narrativa que irá ordenar o mundo e moldar nossa experiência de vida”. Um microcosmo próprio que não se limitasse ao entretenimento, mas que tivesse todo um conjunto de características nacionalistas, substanciadas em gibis, filmes, marcas e souvenirs.

Agora um sexagenário, João Amadeus tem dois herdeiros. Helena, mãe de três filhos, recém-divorciada, uma workaholic em relação aos negócios da família; e Beto, um playboy nato, homossexual, que curte, de forma desbragada, tudo aquilo que o dinheiro pode proporcionar.

Beto é amigo de Tiago Monteiro, jornalista gaúcho que presenciou um dos ataques a bomba executados por militares que resistem à abertura política, no Rio de Janeiro, e pediu demissão d’O Globo, retornando a Porto Alegre.

Anos antes, Tiago havia assinado um elogiado artigo sobre o encontro de João Amadeus e Walt Disney e, justamente pela intimidade com a família, é procurado por um repórter da Folha de SP que está investigando o caso do Riocentro (o mais famoso ataque a bomba envolvendo militares) e tem uma pista de que um coronel linha-dura, vinculado ao incidente, exilou-se no Norte do Brasil, numa região de propriedade de João Amadeus.

Tiago, então, é induzido a contatar Beto, na tentativa de levantar mais informações, todavia o artigo sobre Disney o aproxima novamente de Amadeus. O velho preenche um diário com notas e impressões sobre o processo de engenharia de Tupinilândia e quer organizar os registros numa biografia.

O jornalista seria seu ghostwriter, acompanhando os últimos dias de construção do parque; a princípio de maneira indireta e, mais à frente, de forma direta.

No dia do teste de operações para a abertura, Tiago integra o grupo de privilegiados que entrarão no complexo pela primeira vez. Lá também estão os membros da família Flynguer e funcionários. As primeiras horas são de curiosidade e divertimento, até que algo inesperado e trágico determina o fechamento do parque antes mesmo da abertura.

A história outra vez dá um longo salto e, nos dias de hoje, Tupinilândia é um lugar mítico.

Seu poder de fascínio e de imaginação é o que motiva o antropólogo Artur Alan Flinguer, após ser contemplado com uma bolsa de pesquisa, a tentar desvendar o que se passou no lugar. Este reúne um grupo de pesquisadores, parte para Altamira, porém a expedição pela selva amazônica resultará na descoberta de um segredo – que, dependendo de como as coisas andarem nos próximos meses, é uma boa projeção de nosso país.

Como visto acima, Tupinilândia, romance de quase quinhentas páginas do gaúcho Samir Machado de Machado, é bem cortado em três momentos. E, para cada um deles, o autor aplica uma chave narrativa de maior voltagem: a reconstituição de época, o clima aventuresco, a sátira envelopada à crítica social.

No fluxo da trama, essas frequências temáticas se misturam, tendo ainda infiltrações de comédia, thriller de ação, memória afetiva e texto jornalístico, nessa que é uma viagem “pop-histórica” pelo Brasil dos últimos quarenta anos, o zeitgeist da “última geração que conheceu o mundo anterior e teve tempo de se adaptar ao novo”.

Para isso, Samir gastou um intenso (e perceptível) tempo de leitura e de pesquisa, mantendo a fidelidade da História, com certas convenções para que a ficção de seus personagens pudessem transitar e dar forma a esse mundo que se sobrepõe, feito uma folha de transparência (sacou a alusão?), ao mundo real.

E aí que está o enorme desafio de um livro que se propõe a realizar mais do que a remontagem de uma década, e sim uma arqueologia minuciosa dos elementos que caracterizaram essa década. Não há um parágrafo que não traga uma referência do tempo em que ocorre, especialmente quando se ocupa dos anos 80.

É fundamental dar organicidade ao circuito de fatos marcantes, manifestações sociais e expressões artísticas, a fim de se recriar, com verossimilhança, a atmosfera da época, ao contrário de efetuar um ajuntamento mal-ajambrado de livros, músicas, objetos etc, apenas para de instigar a lembrança de quem viveu e se relacionou com tais elementos.

Samir se sai bem, neste ponto, não comprometendo o andamento da trama, ao encaixar pedaços da realidade em seu plano ficcional.

Obviamente que há algumas conveniências, a exemplo de uma passagem em que se menciona a epidemia da aids e um personagem, logo em seguida, depara-se, no banco de um táxi, com a famigerada edição do Notícias Populares, cuja manchete berrava “Peste-gay já apavora São Paulo”.

Mas o que seria da imaginação sem as conveniências?

O problema está (com o perdão da redundância) em determinados excessos de detalhismo. O autor apresenta uma ambição (bem sucedida) de formação de microcosmo, constituindo, de maneira minudenciosa, da planta do parque, aos nomes das atrações, passando pela definição dos mascotes e descrevendo, por fim, cada um dos ambientes.

Situados próximos à metade do romance, esses capítulos atravancam o ritmo, porém curiosamente acabam funcionando como preâmbulo para o clímax que vem em seguida.

Na visita-teste ao parque, e durante os acontecimentos posteriores, o enredo promove uma saborosa reverência aos filmes de ação dos anos 80/90, com seus vilões maquiavélicos carregados de frases de efeito, heróis inesperados salvando o dia, crianças com truques na manca e um derradeiro sacrifício.

Fica evidente a influência de Jurassic Park (mais a do filme de Spielberg), desenvolvida de modo a promover uma ode à infância daqueles que assistiram De volta para o futuro, na Sessão da Tarde, comendo pirulito Zorro e bebendo Guaraná Brahma, enquanto o vizinho escutava o novo disco do Balão Mágico na vitrolinha.

Assim, mais que uma peça de pura nostalgia, Tupinilândia é um livro de viva imaginação como nunca se viu e nunca se verá na literatura brasileira.

 

 

***

 

 

Livro: Tupinilândia

Editora: Todavia

Avaliação: Bom

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