Visão desencantada do desterro

Tua roupa em outros quartos estrutura-se a partir de duas linhas temporais. O escritor catarinense Antonio Pokrywiecki situa seu protagonista Fernando em dois momentos: a temporada em que morou em Portugal e seu retorno recente à cidade natal, Santa Catarina.

Os planos se alternam. Um parágrafo se dedica ao presente e o próximo ao passado, até as coisas meio que se confluírem.

Essa condução ordenada funciona bem, em função da narrativa ter o formato de relato que sempre avança, que se preocupa com o ritmo da oralidade acima de qualquer investigação psicológica. No entanto, o fluxo não ser compreendido como fio de direção. Para o bem ou para o mal, o romance não deixa claro aonde quer chegar.

Falta uma motivação mais consistente, do que ser apenas um mirante para a passagem remansosa dos dias. Contudo é um defeito? Longe disso.

Tudo acontece sob a perspectiva de Fernando, e a sua perspectiva é a do indivíduo assombrado pelo não pertencimento tanto na Europa quanto no Brasil. O desejo de morar fora nunca foi dele; a obrigação de se adaptar, de deixar a vida abruptamente para trás.

Por isso, quando volta, tudo está diferente (os lugares se transformaram, as pessoas envelheceram) e ele não consegue mais seguir de onde parou.

Pokrywiecki trabalha muito bem o sentimento de desterro versus a ilusão da terra prometida. Na primeira passagem do livro, o narrador se recorda de uma viagem à praia, quando menino, em que seu pai apontava para a linha do horizonte, e dizia que lá ficava Portugal, onde um dia seria a casa deles.

Era uma vontade exclusiva de seus pais. Fernando teve de se encaixar naquele ambiente. Estudar, se enturmar, decifrar a topografia, o idioma (!) e os hábitos, transar.

A princípio, seu contato passa a ser com outros brasileiros, daí conhece Margarida, uma portuguesa mais jovem. Engatam, então, um namoro de reconhecimentos e descobertas, porém a sinceridade sobre o que constroem é um problema, pois Fernando não consegue transferir sinceridade para aquele que se constrói.

Naquela mesma viagem ao mar, estava Bruno, um primo com menos idade com quem compartilhava as brincadeiras. Logo que retorna, é Bruno quem o protagonista decide rever. Vai à formatura do primo. Porém o reencontro é frio, pois são pessoas diferentes agora, a separação não permitiu que perpetuassem a parecença de gostos.

Fica a sensação de alguém que teve um ente desaparecido na infância e, quando mais tarde este reaparece, não há conexão porque sempre se esperou a volta da criança.

Tua roupa em outros quartos (um título formidável, diga-se de passagem) trata da formação despatriada do reino de si, da distância que interfere na conformação da própria identidade. Num momento em que levas de brasileiros deixam o Brasil rumo às paragens portuguesas, pode ser visto como uma representação ficcional ou um presságio.

 

 

***

 

 

Livro: Tua roupa em outros quartos

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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