Dias de febre na cabeça

No mundo em que cresceu todos tinham liberdade de caminhar sem restrições ou toques e militares a espiar e saber o que nos vai na cabeça, mas um dia ela foi dormir e quando acordou tudo havia mudado e as ruas foram tomadas por capacetes, fuzis e por um alvoroço.

“Verão”, conto de Julio Cortázar, tem início com a chegada de uma menina numa cabana afastada no campo. Seu pai precisa resolver um assunto urgente na cidade, portanto a deixa sob cuidados do únicos amigos a quem pode recorrer, apesar da distância e do difícil acesso. A criança é quieta, passa o dia lendo, totalmente alheia ao vaivém dos adultos no cumprimento das tarefas domésticas. Após a ceia, vai dormir, enquanto o casal adia o sono para beber e ouvir música. É aí que coisas estranhas passam a acontecer.

O autor argentino usa do procedimento que se tornou sua marca registrada para trabalhar o insólito: a incorporação do espanto na rotina sem que a causa ou o elemento estressor seja claramente decifrado. O mistério está sempre protegido por uma escrita ambígua, que escala a tensão, abre possibilidades interpretativas, ao mesmo tempo que mantém intacto o núcleo do relato não dito, o que se oferece apenas como um jogo de sugestão. O incomum, talvez sobrenatural, dá as caras aqui e acolá, e nunca se sabe se essas aparições extraordinárias têm origem no que se pode explicar ou não. Terminada a narrativa, permanece sempre a incerteza no leitor desconcertado.

O pernambucano Nivaldo Tenório persegue esse mesmo efeito de aturdimento nas complexas construções dos contos reunidos em Verão, sua mais recente e terceira antologia. São 10 narrativas que operam em degradação de camadas, enredos que se caracterizam pelo aspecto duplo da forma, o relato visível que guarda o relato secreto, deixando a sensação de que algo foi omitido ou ignorado durante o curso da leitura. A diferença fundamental é que, ao contrário das obsessões cortazarianas, os temas não se filiam às manifestações fantásticas e aos terrores da mente. Sob a égide da estação mais quente, os personagens se confrontam com a finitude, a doença, o autoengano e a solidão.

Tenório imprime um clima de desalento que independe do clamor das circunstâncias, sendo a identidade do livro. O sol não é um vetor de vivacidade ou de bem-estar, mas um catalisador de abatimento, que insola e causa queimaduras de inflamar a pele. Assim é em “Tsunami”, poderoso como devem ser os textos de abertura. Narrado por um adolescente que leva um amigo para passar as férias no litoral, o enredo acompanha a passagem dos dias em suas aventuras mornas (ir à praia, caminhar na areia, fazer as refeições, andar de barco), imprimindo sua força magnética no subterrâneo das interações entre os atores da trama sempre num ponto de suspeita. O conto seguinte, “O jardim de Laura”, é articulado numa rede de paralelismos entre relacionamentos maritais, estados de melancolia e traumas vinculados ao fogo. Uma mulher infeliz percebe sua vida remendar o destino trágico da mãe, deslindando da memória um elemento que pode ou irá redefinir o entendimento sobre o passado e o futuro. O desfecho é inexato.

Esses módulos de recordações fazem parte, na maioria das vezes, de um eixo que demonstra um empenho circular. O presente que parece refém de consequências do vivido nas quais não está diretamente filiado, mas que se desdobra de maneira irrefreável para dentro de si. Em “Houdini”, um professora vê a situação de orfandade de uma aluna resgatar passagens da própria infância marcada também pela ausência. Aqui, o expediente de insinuações se amplia, detalhando certas condutas que dão conta de um ambiente social opressor sem precisar nomeá-lo. O recurso evocativo também retorna na analogia entre a mágica do desaparecimento e as desaparições de presos políticos.

“Cata-vento” e “Domenico” são narrativas audaciosas, que revelam o grau de risco a qual se propõe o autor. Tramas de emaranhados densos, repletas de variações e chaves de interseção, apresentando uma sofisticada engenharia no desenho de biografias ficcionais. Vozes que se revezam, sobrepõem-se ou se calam em tempos distintos, costurando fragmentos que dão conta de formular o cenário de uma vida. Fica claro, a essa altura, a intenção calculada de regular o ritmo num tom mais controlado, um processo criativo que visa a experiência participativa na concatenação de pistas soltas e rumos abertos de modo a se imaginar um ou mais finais possíveis. A técnica é muito presente, embora nunca expositiva. O traço estilístico e a lapidação das frases têm o compromisso de estimular a curiosidade no enredamento das situações sugeridas.

O próximo “Míchkin” destoa do padrão do conjunto ao incorporar um componente cômico. Um adolescente abobalhado recebe a visita inesperada de dois discípulos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e, enquanto ouve a graça de Joseph Smith, o fundador da religião, solta observações sobre o plano metafísico baseadas em referências da cultura pop. Há a dinâmica de entrecruzamento de histórias, porém sem a refinada complexidade, ainda se buscando um comentário social. “A carta” emula a prosa epistolar no testemunho de saudade de um jovem soldado para a mãe. Outra vez a estratégia da narração cifrada aparece, dando conta de detalhes particulares, por vezes circunstanciais, que subentendem todo um pano de fundo histórico, uma narrativa elusiva que põe à prova a própria intenção do discurso.

Os contos finais se afinam a esse caráter multifário de tramas que se bifurcam em duas ou três histórias que não necessariamente se resolvem, que muitas vezes dialogam entre si sem precisar firmar fechos de conexão. Tenório efetua manobras de grande habilidade ao instar elipses e alusões sem que isso atrapalhe o entendimento geral de seus enredos. Um livro a ser lembrado quando se iniciar a corrida dos prêmios literários.

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Livro: Verão

Editora: Cepe

Avaliação: Muito bom

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