Cartografia de lugares-comuns

Quieto, ele pensa no sumo daquela experiência, inalterada em seu espírito ao longo dos anos, e daí o motivo de evocá-la: a vida gregária é ter companheiros na noite profunda, durante um trecho do caminho. O restante da travessia, até o término, é um seguir, solitário, rumo ao norte de si mesmo.

Data de 300 a.C. os alertas de Aristóteles sobre os perigos da metáfora. Nos escritos que compõem o tomo Poética, o filósofo grego chama atenção para o uso da figura de linguagem como um mal a ser evitado, uma prática que se baseia na transferência da palavra própria pela imprópria. No entendimento aristotélico, a metáfora é um mero ornamento, um animal de plumas que serve para ataviar o texto. Parafraseando o poeta argentino Roberto Juarroz, a metáfora é o único pássaro que pode ser igual a um adorno.

Mas qual o poder nocivo da metáfora? Bem, nenhum ou devastador. De volta a Aristóteles, o pensador atenta para os abusos da transposição de sentido ao cúmulo de se drenar o significado próprio do texto para algo indecifrável. O alargamento da propriedade figurativa pouco a pouco descaracteriza o entendimento provisório num vício narrativo, uma muleta de escrita que, recorrente, alcança o extremo do chavão. Ou seja, a melhor metáfora do uso da metáfora é a preparação do peixe fugu. Retirado com máximo apuro o fígado do animal, sua carne é uma iguaria. No entanto, caso o órgão seja rompido, vaza um veneno que torna qualquer apreciação mortal.

A literatura de João Anzanello Carrascoza se caracteriza por um procedimento estilístico baseado numa prosa poética e de alta potência imagética. Foi assim que o autor paulista ganhou, por exemplo, o Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional, com o volume de contos Trama de meninos. O recém-lançado Inventário do azul se constitui dessa mesma matéria lírica para elaborar a cartografia sentimental de um narrador anônimo que, (des)norteado por memórias e meditações, percorre um delineado de vivências que vai da infância até a meia-idade. São capturas subjetivas, retratos de família, interpretações e pensamentos dispostos numa estrutura movediça e randômica que oferece a experiência da montagem de um puzzle, um aglomerado de curtos relatos que estabelecem um senso na conjunção e disjunção do espaço-tempo.

Ora pelo olhar da surpresa da descoberta, ora pelo testemunho do travo da melancolia, o texto se debruça sobre as circunstâncias humanas que dão forma a episódios vistos como que por frestas, domados por uma imanência que se infiltra na rotina para, desse universo comezinho, evocar elementos, personagens, ambientes e sensações que variam de tom conforme são recapitulados e revividos por essa voz guia. A natureza e as estações, os seres selvagens e os domésticos, as brincadeiras e os brinquedos, a formação intelectual e a profissional. Os membros familiares, os ciclos de amizade e aqueles com quem se envolveu romanticamente despertam da mera contemplação, por vezes atinada por um filtro metafísico, a confissões duras situadas num estado dramático de perda e dor. Tudo se reconhece num mesmo processo de escavação do passado, no qual as observações pueris, de tola decifração do mundo e perplexidades, têm como contraparte a consciência adulta, crítica e um tanto desamparada.

A essa arquitetura de presenças e ausências, um circuito de recordações transitórias, quando não fugazes, a figura do pai – concomitante ao simbolismo da paternidade – é uma imagem recorrente, uma espécie de espectro que representa o trauma e será o catalisador de decisões intratáveis. De fato, há muito mais zonas de sombra, penumbras, que focos de luz em todo o livro. E a essas disrupções do corpo físico e da alma, o autor se utiliza, algumas vezes, de recursos estéticos, como rasuras, aliterações, ecos e desalinhos na diagramação, para dar plasticidade às inquietações do narrador. Uma marca visual ao discurso de regresso, ilustrando o conflito de quem procura se conhecer, mapeando-se.

O grande problema está na aplicação desenfreada de um tratamento metafórico por todo texto. São raros os capítulos, mesmo os mais enxutos, que não se direcionam para operações de substituições e comparações figurativas, além de uma tendência cansativa de encaixar, nas últimas linhas, frases de efeito. Relembrando Aristóteles, o mal não é o uso. Inclusive, há passagens degustáveis, a exemplo de: E lá, como no porão do passado, vai descobrindo, sem pressa (…), no abecedário daquela escrita secreta, os próximos passos de sua história. Contudo, o que reina é o abuso, e a prosa descamba para estâncias pantanosas do clichê, do maneirismo, da pieguice. Trechos como: somente as feridas abertas podem ser fechadas; A vida inteira tentando se ancorar nas palavras para que seu veleiro, fadado ao naufrágio, avance mais uma onda no alto-mar – da existência; e Porque a pérola sempre se recorda de que nasceu de um grão de areia são infiltrações da toxina hepática na linguagem, debilitando o corpo do romance.

A certa altura, o narrador menciona o fragmento de um poema com alto poder de embevecimento, formado por uma série de metáforas sobre a vida e sua formosura. Tão bela ela é, como um sim numa sala negativa. Milênios depois, o aviso aristotélico sobre a descaracterização do sentido em algo indecifrável não poderia ser mais preciso. Ainda que traga qualquer intenção de aprendizado ou a percepção de um elevo poético na dureza da rotina, o estilo ataviado torna sentenças como essa um grande mistério.

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Livro: Inventário do azul

Editora: Alfaguara

Avaliação: Regular

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