Tramas sobre o jogo do acaso

Esse pedaço de tecido é um dos pais da matéria que conta a história. Foi ele que provocou a não morte – a bifurcação. Em seu diminuto espaço, estavam contidos vários destinos.

O livro dos pequenos nãos tem início com o encontro das amigas Lia e Ana num restaurante na zona sul do Rio. A certa altura da conversa, Ana comenta que está lendo um livro que descreve a morte do poeta Ronald de Carvalho num desastre de carro nos anos 1920, época que acidentes automobilísticos eram raros. Carvalho estava de carona com um amigo que iria tomar a avenida principal, quando o poeta sugeriu que optasse por uma ruazinha vicinal, tranquila, quase sem tráfego. Pois foi lá que o veículo em que estavam foi atingido em cheio por outro em alta velocidade, causando a tragédia. A frase dele mudou tudo, comenta Ana. Foi só um não, um pequeno não, replica a amiga mais adiante. Mas nunca uma frase mereceu tanto ser chamada de sentença.

Na volta para casa, o caso ainda repercute na mente de Lia. Quando o carro que dirige para num sinal e ela avista uma bifurcação, pondera sobre o curso dos fatos: e se, ao invés de decidir pelo percurso habitual, seguisse por um rumo imprevisto? E se o descaminho fosse rota a partir dali? A resolução da personagem é o ponto de partida do novo romance de Heloisa Seixas, no qual o poder da escolha se confronta com a mão do acaso. Com um argumento que parece ter saído de um livro de autoajuda, a escritora carioca insufla dilemas filosóficos para subverter a engenharia do gênero romanesco. A trama se constrói a partir do fluxo de cenas de uma linha narrativa intervalada que abre, em seus vãos, acessos a episódios aleatórios que se conectam através da dinâmica de um puzzle de dupla face. Fragmentos menores que se atam nos interstícios da montagem de um relato maior – “histórias dentro de histórias dentro de histórias” -, articulando uma costura em pontos de conjunção soltos no espaço-tempo.

Assim, Lia entremeia sua deambulação pela noite com o resgate de passagens de um relacionamento conturbado, que influencia (ou determina) suas escolhas diante das circunstâncias que lhe reserva o desconhecido. Paralelamente ao presente da protagonista, um segundo plano minera um passado longínquo, revelando personagens que tiveram suas vidas modificadas por um golpe de sorte, por um instante crucial que lhes reescreveram o destino. O texto singra para 1897, no sertão baiano, quando o médico e capitão do Exército João Alexandre abandona sua família para integrar a tropa liderada pelo coronel Moreira César num ataque contra os jagunços de Antônio Conselheiro, em Canudos. Em seguida, a linha temporal avança para 1912, acompanhando as aventuras prosaicas da menina Mariá, filha do comendador Urpia, na fazenda em que é tutelada por uma ama contadora de histórias, depois pula para 1935, em Barra do Itariri, onde a jovem Angélica vive o temor de ser arrebatada pelo bando de Lampião que se aproxima.

O último registro ocorre em 1948, quando Délio embarca num hidroavião da Bahia para o Rio, onde vai se encontrar com a mulher que casou por procuração. Ao contrário do poeta Ronald Carvalho, todos escapam da fatalidade pela presença eventual de um objeto ou pela mudança inesperada de uma situação. A incidência desses desvios é que vai criar, ao longo de décadas, os elos em suas biografias. E aqui aparece um dos aspectos identitários da literatura de Heloisa Seixas: o componente sobrenatural. Pouco antes de sofrerem os lances de impremeditação, os personagens sentem ou são visitados por algo sombrio, uma manifestação fantasmal, um aviso; o vapor invisível que as pessoas amedrontadas desprendem da nuca, como diz um deles, “uma fumaça da qual as almas penadas se alimentam”.

Experienciar esses episódios é o que há de melhor no livro. A ambientação de época, a conversão da pesquisa histórica em matéria ficcional, as malhas psicológicas dos atores da trama e o constante diálogo com referências bibliográficas, tudo levado pela escrita macia, envolvente e bem articulada. Portanto, seria um saboroso volume de contos se a estratégia formal não se pedisse um romance. Falta correlação para isso, porém. Um elemento intuitivo, uma chave binária que unisse os relatos do passado e do presente. Mesmo a revelação derradeira de caráter, digamos, autoficcional, só serve para ilustrar a cola entre os fragmentos da segunda linha narrativa, deixando o passeio errante de Lia avulso em seus próprios desdobramentos. Tentar vincular ambas as partes apenas pelo dilema filosófico sobre os jogos do acaso é, no mínimo, forçado.

Ademais, diferente do bom acabamento das historietas, o mergulho noite adentro soa como um tour de force sem escopo predefinido, um rolamento de fatos que, diante da conclusão e, sobretudo, do motivo da protagonista ter se lançado ao desconhecido, mostra-se arbitrário, um sopro de vontade que poderia ter qualquer outro contexto, que poderia ter sido resolvido com a própria amiga do restaurante. Nesses termos, a frase que rege o enredo serve também para questionar a própria escolha do gênero. E se, ao invés de classificar o livro como romance, a autora optasse por uma coletânea de contos? Certamente seria um pequeno sim, mas que aqui faria muita diferença.

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Livro: O livro dos pequenos nãos

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Regular

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