Black Mirror nordestino

Os animais marinhos míticos das fábulas, das lendas, dos poemas épicos, uma recém-descoberta espécie de dinossauro… Ela olhava a carcaça e a sensação era outra, ali estava somente um monte de vigas, placas e tocos de metal. Lixo, só lixo, nunca um mito.

Publicada no início dos anos 80, a antologia Os buracos da máscara foi pioneira na tradução e organização de contos fantásticos no Brasil. Não por menos, o livro abre com uma apresentação de caráter quase didático, no qual seu idealizador, o poeta e crítico literário José Paulo Paes, resgata a origem dessas narrativas nas histórias de terror supersticioso que circulavam entre os camponeses da Idade Média, extraídas do material folclórico acerca de feitiços, possessões diabólicas, fantasmas, mortos-vivos e vampiros.

Foi esse rico filão, complementa, que iria inspirar a criação de um novo subgênero da prosa ficcional. Ter herdado do Medievo o gosto do irracional e do sobrenatural, numa época em que só o racional e o natural contavam, produziu a indelével marca de nascença da moderna ficção fantástica, marca de que serve inclusive para conceituá-la literalmente. Sob a frequência que se regula entre o maravilhoso e o sombrio, essa nova vertente iria se somar aos aspectos da tradição popular, reelaborando-se à medida que o tempo impõe novas representações dos terrores de sua época, da potência estranha que se irradia dos lugares do mundo.

Em Gótico nordestino, o escritor Cristhiano Aguiar assenta esse domínio em seu território de origem, o Nordeste do Brasil. São nove narrativas que exploram anomalias na realidade dentro de um mundo que mantém seu sestro reconhecível, que não deixa dúvida quanto ao recorte da região em que se inspira, com traços evocativos de um trilho histórico que passa do período do cangaço ao da ditadura militar, embarcando ainda em planos oníricos e em manifestações de estados latentes.

Nesse universo estranho ao mesmo tempo que familiar, os personagens se veem às voltas com surtos inexplicáveis, assombramentos, criaturas vorazes e cultos bizarros, cujos elementos de construção bebem da fonte do populário, da herança de uma mitologia particular, mas também (ou mais) da influência da cultura das séries de tevê, dos filmes, dos quadrinhos e dos games. Por isso, os enredos soam circunstancialmente alusivos, ainda que o autor supere o senso de reprise com soluções e possibilidades criativas.

A antologia se inicia com o atmosférico “Anda-luz”, no qual um menino é incumbido de entregar um bilhete ao líder dos cangaceiros que dominam as redondezas. De um povoado a outro, ele cruza um matagal na transição entre o breu da madrugada e a opacidade da aurora, temendo aparições e uma doença invisível que impregna o ar, chamada de Febre. Outra epidemia pasma o argumento de “Lázaro”, em que os mortos voltam à vida. A história é refratada de dentro de uma família na qual a matriarca ressuscita, incorporando, ao substrato do absurdo, a glosa irônica e a observação crítica. Meu pai ressuscitou. Como fica o inventário dos bens? Daqui a pouco conversamos com um especialista, o doutor…, anuncia a apresentadora de um programa para uma sociedade em que a “pós-vida” torna-se um enorme fardo.

Em flerte com o terror cósmico, o curto “Tecidos no jardim” acompanha um passeio frugal transtornado pela descoberta de uma planta que abriga micro espécies capazes de subverter a percepção humana. Nessa mesma linha está “Anna e seus insetos”, um percurso interno pelos anseios da protagonista, por uma Recife de outrora que cria uma fenda entre passado e presente, entre físico e metafísico, por onde saem aracnídeos e coleópteros, um misto (também alegórico) de body horror e a “Casa tomada”, de Cortázar.

Da mesma coletânea do escritor argentino, vem a referência para o excelente “As onças”, que encontra pontos de cruzamento em “Bestiário” e “Os dragões”, de Murilo Rubião. Uma mãe, com um filho a tiracolo, tem de atravessar um vilarejo para conseguir um remédio para o marido. O lugar é cercado por felinos inteligentes, fazendo com que os moradores se tranquem em casa, com medo dos ataques brutais. O conto apresenta uma surpreendente revelação final, assim como “A Noiva”, outro que acerta em cheio na construção de um imaginário soturno e na escala de tensão. Um grupo de crianças se depara com o corpo de uma mulher, e é tudo que o leitor precisa saber.

“Vampiro” mantém o nível de qualidade, com ecos de “A família do vurdalak”, de Aleksei Tolstói, um dos relatos mais aterradores da história da literatura. O entendimento da presença de um vampiro numa área rural faz com que a população modele sua rotina a partir do intruso, recriando o mito do sugador de sangue pelos olhos fastos da infância. Por outro lado, algumas narrativas têm o desenvolvimento irregular, ainda que com motes interessantes. “Firestarter”, sobre uma legião de pessoas que toma a estrada para catalogar tipos de fogo, parece a base de um episódio de Black Mirror – ou de um desses realities esquisitos do Discovery Channel. Já “A mulher dos pés molhados” aposta em entradas e saídas de pesadelos para tratar da relação entre pai e filha sob o signo de uma maldição familiar. É ardiloso, mas não de maneira positiva.

De volta ao texto introdutório de Os buracos da máscara, José Paulo Paes recorre ao filósofo Tzvetan Todorov para ilustrar sua teoria sobre a eficácia de um conto fantástico. Em “Introdução à Literatura Fantástica”, o autor búlgaro defende que é condição imprescindível, para o êxito de qualquer texto do gênero, que o leitor hesite, até o fim da narrativa, entre uma explicação natural e uma explicação sobrenatural para os surpreendentes fatos narrados, sem que dê, a esses fatos, uma explicação poética ou alegórica, sob pena de comprometer de maneira irremediável a sensação do fantástico, que é fundamentalmente produto da hesitação referida.

Gótico nordestino consegue, em grande parte de seu conteúdo, implementar esse mecanismo de sequestro da atenção e espanto, oferecendo uma leitura que sabe ser entretenimento ao mesmo tempo que guarda implicações para criaturas repugnantes que infestam a alvorada e uma pandemia em vigor. Narrativas para as quais se podem olhar além da imaginação, e perceber a reciclagem de velhos mitos para expor um mundo às avessas que é uma sinistra representação ficcional, e não é.

 

 

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Livro: Gótico nordestino

Editora: Alfaguara

Avaliação: Bom

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