A ditadura pelo olhar infantil

A batalha se dava na escolha de termos que seriam capazes de amenizar os tantos problemas familiares e profissionais, das palavras encarregadas de não dizer. Um jogo que, por falta de opção, era também adotado pelos que se viam oprimidos pelo Estado – tudo era falado de maneira oblíqua, reticente, sombreada.

A distância do tempo tem possibilitado a uma nova geração de escritores voltar-se para o período em que a ditadura militar prevaleceu no continente sul-americano e compor, a partir dessa realidade histórica, uma representação ficcional modulada pela experiência da infância. Histórias capitaneadas por visões pueris sobre os anos de chumbo, nas quais a lente da inocência mantém os horrores praticados pelo regime ocultos num clima de aparente normalidade, criando testemunhas mudas de uma sociedade oprimida.

Bons romances, a exemplo de Clarice, de Roger Mello, e Kramp, da chilena Maria José Ferrada, mostram esses domos de alheamento que cobrem as crianças, os filhos submersos num universo lúdico refratário à atmosfera de insegurança e medo, aos ruídos da máquina de prisões e torturas. A passagem que melhor retrata esse sintoma está no estupendo Formas de voltar para casa, do também chileno Alejandro Zambra, que revive o governo sanguinário do general Augusto Pinochet: Enquanto os adultos matavam ou eram mortos, nós fazíamos desenhos num canto. Enquanto o país se fazia em pedaços, nós aprendíamos a falar, a andar, a dobrar os guardanapos em formas de barcos, de aviões. Enquanto o romance acontecia, nós brincávamos de esconder, de desaparecer.

Fernando Molica opera nesse mesmo procedimento figurativo o enredo de Elefantes no céu de Piedade, seu novo romance. O narrador Francisco rememora um trecho de sua infância na década de 70, quando, aos 10 anos, morava no subúrbio carioca na companhia dos pais e da irmã mais velha. O comércio da família lhes permitia luxos da classe média, com dois carros na garagem, empregada e boa escola. Gozavam do milagre econômico propagandeado pelo governo militar, amparados no noticiário que apregoava a soberania nacional. Suas únicas preocupações eram com os subversivos, que praticavam terrorismo, assaltos a banco e sequestros.

Então chega a informação que um parente foi preso em circunstâncias imprecisas. Dias depois, o pai anuncia que um sobrinho vindo do Espírito Santo irá passar uma temporada com eles. Carlos Alberto, estudante de economia, ficará hospedado num quarto fora da casa, antes ocupado pela empregada repentinamente dispensada por algumas semanas. O que se alega é que o rapaz veio em busca de novos ares e de um especialista para o tratamento de um problema de saúde. Fique tranquila. A doença dele está sob controle, nem nós, nem muito menos as crianças corremos perigo, declara o homem à esposa.

Essa é a primeira aparição do jogo cifrado da escrita. Obviamente que a doença tem outro significado, tampouco a viagem foi um ato frugal. Assim como Zambra, Molica usa da ambivalência dos verbos esconder e desaparecer, de modo a parear as brincadeiras infantis ao cenário de aparências que os adultos instavam para refugiar seus filhos. O narrador comenta o funcionamento desse mecanismo numa passagem: Ser criança era viver num constante e mutável jogo de pique-esconde. Como se a brincadeira tivesse sido adaptada pelos mais velhos e recriada para ocultar ou, pelo menos, tornar palatáveis episódios que, na visão adulta, não seria compatíveis com o universo infantil. Um jogo interminável, de sucessivas camadas. Embates e narrativas familiares que seguiam, descobriria depois, o padrão utilizado pelo governo para esconder ou manipular os fatos.

Ao contar de dentro, como testemunho, o autor explora a dimensão desses gestos camuflados na psicologia da convivência, evidenciando o impacto dessa dissimulação entre os integrantes da casa. Os que nada sabem, os que fingem que não sabem e sobre quem precisa-se esconder o que se sabe. A manutenção dessa mise-en-scène é realizada, portanto, pelo roteiro daquele (ou daquilo) que se revela ameaça. Celebra-se os feitos do regime e os valores tradicionais enquanto se vela um desvio, cuspindo moralismo contra a sobrinha namoradeira, o adolescente que fuma, as irmãs solteiras que saem da casa dos pais e vão morar, sozinhas, num apartamento alugado.

É nesse contexto altamente atraente que se revela, aliás, os mais interessantes componentes da trama: a verossimilhança dos personagens e de seus dramas internos, as vieses domésticas dentro da reconstrução do painel histórico, a naturalidade dos diálogos, ainda que alguns soem um tanto expositivos. O leitor é tragado para o espaço do subúrbio de outrora, uma representação mimética que parece constituída da combinação de força da imaginação e experiência pessoal, passeando por arquiteturas urbanas e memorabilia que os estreitam como que num corpo-a-corpo com o real, o regaste de um passado poroso que dá a dimensão vibrante do vivido.

Ser uma espécie de cúmplice desse momento faz com que se construa um vínculo emocional com o menino, sobretudo quando este começa a divisar por entre as rachaduras que se abrem nas máscaras, decretando o fim da inocência pouco a pouco, a formação oblíqua num crescendo de descobertas e espantos. Elefantes no céu de Piedade, afinal, é um livro sobre como o desconhecimento pode ser (invariavelmente) um veio tênue para a condenação. Uma forma de voltar para casa pela memória e externar, pela memória, toda a vilania e crueldade de uma ditadura militar que prendeu, que torturou, que matou, que desapareceu pessoas, famílias. Um relato sobre aqueles que precisam ser lembrados e, principalmente no Brasil de hoje, para aqueles não querem seguir esquecendo.

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Livro: Elefantes no céu de Piedade

Editora: Patuá

Avaliação: Muito bom

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