O inferno na infância

Quando chegou na porta de casa ele falou pra eu não chorar mais, que ele gostava muito de mim, aí pediu pra eu dar um beijo nele, eu dei né, vai que ele faz maldade depois se eu falo que não, ele falou que era nosso segredinho

É difícil, com a sabedoria do passado, não associar imediatamente o nome de Rubén Dario à poesia. Porém, na centelha de sua carreira, o escritor nicaraguense que renovou a matéria, o vocabulário, a métrica, a magia peculiar de certas palavras, a sensibilidade do poeta e de seus leitores, como exaltou Borges, apostava na escritura de breves narrativas em prosa. Foram centenas delas que, antes de seu nome virar símbolo do modernismo hispano-americano, bebiam da fonte dos mitos, do insólito, do sobrenatural.

Não por menos, o historiador Alberto Manguel selecionou uma dessas ficções para figurar na coletânea Contos de horror do século XIX. O pequeno “A larva” traz o relato de um narrador oculto que descreve um encontro assustador num tempo em que era um meninote. Como esclarece o próprio organizador da antologia, não se trata de um texto de terror com as características clássicas do gênero, mas de um conto que expressa o medo em seu movimento interno. Ou seja, o assombro não se transfere para leitor no resolver dos acontecimentos, e sim pela maneira com que o personagem descreve tais circunstâncias, nos quais é agente ao mesmo tempo que testemunha.

Essa mesma dinâmica se efetua em “Larva”, um dos contos iniciais de Inventário de predadores domésticos, de Verena Cavalcante. A narradora é uma menina que, após o pai se mudar para outra cidade em busca de emprego, vai morar com os avós e um tio com problemas mentais. Ela detalhe sua vida cotidiana, por uma perspectiva pueril, porém corrompida por ocasiões de crueldade, até a inocência implodir depois de uma notícia devastadora. Embora mencione o medo de fantasma, o espanto se manifesta no que há de mais monstruoso na natureza humana. O imaginário se desmantela em violações reais do corpo físico.

Mesmo assim, pode-se dizer que a antologia da escritora paulista é um livro de horror? Sim. Mas não um terror fabuloso, de aparições e seres tenebrosos, do cosmo imaterial onde se situam as ficções inaugurais de Rubén Dario. O universo criado por Verena é um símile distorcido da casa e da rua, povoado por agressores sexuais, pervertidos, assassinos, dementes, crianças que passam por violências e tragédias, e crianças que praticam violências e causam tragédias. E aqui se encontra a grande sacada da autora, articulada naquele procedimento de escrita de submeter a leitura à uma experiência participativa através do testemunho de seus narradores. Todos os personagens transmitem uma ingenuidade insuperável em suas falas que os mantêm alheios ao contexto sórdido que estão inseridos ou a que serão lançados. Porém o leitor sabe e esse efeito, que beira a tortura, deixa-o apreensivo e desarmado diante de tamanha crueldade, da virulência do não publicado.

É o caso do conto “Picada”, na qual uma menina em vias de entrar na puberdade começa a notar as brincadeiras de bolinagem entre meninos e meninas durante o recreio. Numa manhã, o motorista da perua da escola estaciona num lugar ermo e, sozinhos, a obriga “a balançar a mão para cima e para baixo na coisa dele” até sair “uma coisa quente”. Sua incapacidade de distinguir o que está acontecendo é a mesma de quando descobre uma mancha de sangue no forro de sua calcinha. Em “Tijolo”, o estigma do abuso também é o fio condutor. Um garoto vai à casa de uns adolescentes que estão vendo um filme adulto e, da masturbação explícita, vem a sugestão de se revezarem na prática da sodomia. Algo ocorre e o personagem é chantageado a cometer um ato brutal para que não seja denunciado ao pai machista.

A cadeia de fatos se formula a partir desses sequestros da pureza que, brutalmente, dissolvem-se na banalidade da rotina. Uma convivência da realidade mirim com o sombrio, que fabrica seres severamente fraturados por atos de corrupção que advêm da maldade de uma figura mais velha, representante da violência doméstica, da devassidão ou da loucura. De modo que, para esses personagens, não há outra possibilidade de existência, senão se deteriorar física e moralmente. O que se torna extremamente angustiante de presenciar, sobretudo pela dicção imatura que conduzem os depoimentos, ora um tatibitate falível, ora uma linguagem pontuada por um português claudicante.

Assim é em “Macaúba”, sobre uma menina que narra o desaparecimento de uma criança, no Brasil profundo da religiosidade e da paupérie. (…) um dia na catequese a mulher falô que a hóstia que a gente ia comê era o corpo de Cristo e que o vinho era o sangue, ela falô que num podia mastigá, que tinha que dexá derretê na língua, aí quando eu fui na missa no otro domingo e vi a menina mastigano, e tinha sangue escorreno do queixo dela, parecia que ela tava triturano os ossos de Jesus, me deu um nojo muito grande, tive que engoli o vômito que veio, relata a personagem. O abismo entre classes, aliás, é um dos fatores contínuos que empurram os atores das tramas para situações de humilhação e de intolerância. “Ralo” ocorre sob o ponto de vista de uma garotinha abastada que absorve o racismo por meio de observações perniciosas da mãe. Um dia, uma menina que mora aqui perto de casa tava andando com uma roupa marrom e ela é preta, aí minha mãe falou pra ela que não podia, porque gente preta tem que parecer mais branca, tem que esconder, tem que usar roupa amarela, roupa branca, senão fica tudo muito marrom, preto, e preto é feio, é cor escura, eu detesto preto, minha mãe me ensinou que a gente tem que detestar preto porque branco é que é bonito, declara.

O conto bifurca a temática da violência para o ambiente social, explorada em “Meias” e “Cinzeiro”. Em ambos, os narradores são filhos da marginalidade que, através da educação, intencionam um futuro próspero, mas são tragados do sonho por perdas irreparáveis. É como um vórtex da distopia humana que suga e devolve a vítima num estado tão vil quanto de seu algoz, a exemplo de “Transmutação”, o testemunho desvairado e aflitivo da refém de um predador em sua interação com outras aprisionadas.

No segmento final, a autora arrisca outros formatos – como em “Diário”, anotações de uma adolescente encantada por um rapaz, sem saber que está sendo atraída para um covil de lobos – e esgarça o universo infantil para dar voz a mulheres que reclamam seus mortos para a ditadura, os filhos para homens demoníacos, a vingança dos maus-tratos dentro de casa, as crenças nos deuses da floresta e nos viveres das criaturas peçonhentas. Este ponto também é onde saltam mais aos olhos o belo projeto gráfico, com ilustrações de plantas e de insetos que, aqui e acolá, frequentam as histórias. No entanto, apesar da boa qualidade, os contos centrados nos dramas femininos não expressam o mesmo impacto que seus antecessores. No poema “Rimas”, Rubén Dario investiga o incontornável encontro com a finitude, na passagem de tempo que se esgota para uma idosa e se dilata para uma criança. A certa altura, os versos se convertem em interrogações sobre os destinos reais e abstratos da vida. “Que não há inferno?/Sim, há…”, responde a si mesmo o eu lírico. Em vários estágios, de muitas maneiras. Nos contos de Verena Cavalcante, o inferno está na infância.

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Livro: Inventário de predadores domésticos

Editora: Darkside

Avaliação: Muito bom

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