A fórmula zambriana

O pai se deixa vencer, porque para ser um bom pai é preciso deixar-se vencer. Ser pai consiste em deixar-se vencer até o dia em que a derrota seja verdadeira.

O sexo, de uma forma ou de outra, sempre foi o regulador da relação entre Carla e Gonzalo. Primeiro em medida de descoberta, depois de aprendizado e, por fim, de ruptura. Este período compreende a adolescência dos namorados num Chile do início dos anos 1990. Quase uma década depois, uma casualidade os reúne e, outra vez, o sexo é a chave para a inesperada reaproximação se tornar o engate de um relacionamento firme. Como ressalta Alejandro Zambra, ao fim deste segmento inicial de Poeta chileno, “é graças a esse reencontro que esta história alcança a quantidade necessária de páginas para ser considerada um romance”.

O problema está no excesso. O escritor chileno se consagrou pela prosa lacônica, articulada por uma escrita elegante, de frases bem marcadas e construções perspicazes. Sua marca de estilo opera a partir da amplitude que se obtém da contenção. Portanto seus romances são breves, ressoando a experiência de leitura para além dos limites paginados. Este tem o dobro de tamanho dos anteriores (428 páginas, para ser exato), mas idealizado com os mesmos aspectos narrativos. Sobra, perde força em vários momentos, fica circular. O eixo central não dá conta de estirar as muitas andanças do enredo, e autor recorre a um artifício duvidoso: a autorreferência bibliográfica.

De volta à trama, Gonzalo descobre que Carla tem um filho, Vicente, e os três passam a viver juntos. A vida cotidiana, com seus dramas mornos, torna-se um condutor para se estabelecer uma associação entre literatura e convivência; as conjunções e disjunções das relações afetivas, a arbitrariedade do destino (temas emprestados de Bonsai). Em dado momento, Gonzalo questiona sua condição de padastro de Vicente, diante da existência do pai biológico, chegando a presumir que deve entender de árvores para se comunicar com o menino, enquanto teme que a demora de Carla para chegar do trabalho tenha um motivo sinistro (uma menção explícita à A vida privada das árvores).

Tudo gira em torno deste contexto solipsista de família, com a ventilação de algumas observações literárias. Gonzalo cresceu numa época na qual os poetas chilenos angariavam prestígio internacional e parecia possível viver de poesia. Afinal, como declara um personagem, somos bicampeões mundiais de poesia, referindo-se aos prêmios Nobel concedidos aos poetas Gabriela Mistral e Pablo Neruda. Tal idealismo costeia as decisões de Gonzalo e uma segunda ruptura irá deixar algumas repercussões. A mais notável está em Vicente que, num novo salto temporal, é um jovem adulto rabiscando seus próprios versos e refletindo sobre a elevação criativa das influências paisanas.

Ao lado de Pru, uma gringa com quem se enamora, e do amigo Pato, enceta a melhor parte do livro, numa reconfiguração do tom, agora mais humorístico e diligente, e da acepção das fronteiras ficcionais, infiltrando-se em discussões sobre nacionalismo em meio ao rastreio por constelações biográficas. A autorreferência dá lugar ao módulo referencial, surdindo as camadas internas do romance onde se presta reverências, como ao poeta Gonzalo Millán, e se destila uma ironia espirituosa à literatura de Roberto Bolaño, especialmente ao seu famigerado Os detetives selvagens, num trecho de diálogos ardilosos. O encaminhamento do ato final, apesar de óbvio, arma um enlace comovente.

Num painel de intrigas sagazes sobre escritores de primeiro e de segundo escalão, Poeta chileno se destaca pelo que elegeu como subtrama. Por meio de frequências reflexivas e circunstanciais, acaba esbarrando no próprio zeigeist para falar sobre literatura, da mesma maneira que o autor se vale do espreitamento para falar sobre a ditadura de seu país no estupendo Formas de voltar para casa. Zambra é um dos melhores escritores latino-americanos contemporâneos, dono de uma escritura sedutora, de contrações vocais e trato fino com as palavras, porém precisa tomar cuidado para que seu estilo não se torne uma fórmula.

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Livro: Poeta chileno

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Regular

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