Abismo de um sonho

Continua o mesmo covarde, então só vai pisar na calçada quando o cachorro tiver ido embora.

Um palestrante motivacional toma um voo às pressas de Buenos Aires para o povoado de San Benito, na Patagônia. Lá, instala-se na casa que pertencia a seus avós, onde passou os verões de sua infância. O motivo secreto de sua viagem está relacionado a um incidente envolvendo uma ex-namorada, que tampouco prefere mencionar. A partir de então, seus dias serão regrados pelo plano de escrever um roteiro de cinema, ainda que lhe atormente a possibilidade de sofrer de uma doença fatal.

Em sua primeira camada, Faça-se você mesmo, novela de Enzo Maqueira, tem o andamento de um relato que avança frugalmente, cruzando o curso presente com fragmentos de lembranças. O autor argentino descreve, com uma fluidez intuitiva, a vida cotidiana de um homem que busca se auto reconhecer através de um novo cenário e de novas identificações sociais, utilizando o passado como chave de acesso, em especial as inteirações com seu avô, um imigrante de origem italiana.

Portanto, enquanto rememora as mãos teimosas na terra para “transformar um pedaço de deserto numa horta” e o plantio da macieira, “a única árvore que restou do quintal daquele tempo”, ocupa-se com reparos domésticos, encontra-se casualmente com uma aspirante a atriz e conhece o vizinho de cerca, a quem apelida de Freddie Mercury, dono de um cão irritadiço. Suas inspirações para a escrita são os diretores canônicos do cinema europeu, em especial o romano Federico Fellini, a quem referencia a todo instante: “as únicas memórias que valem a pena estão na infância”. Daí, um fato disruptivo lhe acerta em cheio, introvertendo a trama com a pulsão de um thriller psicológico.

Maqueira é engenhoso ao operar seu enredo pelo conceito do conterrâneo Ricardo Piglia, de que toda história são duas: a visível e a secreta, que se esconde nos interstícios da primeira, ocorrendo de maneira elíptica e fragmentária. No instante em que sobrevém a ruptura, a cisão faz aparecer uma segunda camada onde serão ressignificados certos procedimentos relacionados ao comportamento do personagem e suas neuras hipocondríacas. O deserto adquire o aspecto de um monstro e o trânsito por sua geografia rochosa e traiçoeira servirá de caráter duplo para decisões perniciosas no passado e no presente. Sobretudo quando essa linha temporal se esvanece com o achado de uma velha arma.

Faça-se você mesmo contagia com seu modelo cifrado de narrativa, que parece trivial ainda que fascinantemente enigmático. Não é difícil, para o leitor, tirar suas conclusões do porquê da fuga para a Patagônia, do que aconteceu com a ex-namorada e dos efeitos do desatino do protagonista, ainda que o livro deixe a solução final aberta para interpretações. Dessa vez contrariando Piglia, o relato secreto não vem à superfície. Nem toda história serve para iluminar, algumas são admiráveis por obscurecer.

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Livro: Faça-se você mesmo

Editora: Pontoedita

Avaliação: Muito bom

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