Uma linhagem de perdas

(…) como todas as mulheres da família, gerações que se sucediam dando origem a pássaros de voo cada vez mais curto.

Passa-se abril de 1963 e Úrsula, aos 12 anos, sai de Porto Alegre, de ônibus, para o casamento de familiares distantes em Curitiba. Está em companhia da mãe, Marli, pois o pai atribui àqueles parentes o motivo de sua queda. Em meio à sensação de não pertencimento e ao cuidado às boas maneiras, a menina se preocupa com o asseio de seu vestido. É uma peça recauchutada, que denuncia a dificuldade financeira que passa sua família. Assim, quando as outras crianças a chamam para brincar, ela fica cheia de dedos, tornando suspeito seu comportamento. Uma prima mais velha caçoa: Coitada, só porque a mãe reformou um vestido velho, pensa que é alguma coisa.

Um pouco mais de um ano depois, Edna passa por outro rito de humilhação. Na iminência do parto, precisa do carro emprestado do vizinho para ser levada ao hospital. Ao receber alta, também volta a morar emprestado com os pais, no quartinho dividido com o namorado, de quem engravidou antes do casamento. Estão desempregados, e terão de se submeter ao trabalho braçal na mercearia da família. É o segundo filho, uma menina, depois de passarem pelo aturdimento de uma perda.

A linha temporal, então, dá um salto de quatro décadas, ano de 2006, e Olívia deambula pela vida tão aturdida quanto. O fim da adolescência lhe pressiona com os deveres e as incertezas diante do futuro. Precisa terminar os estudos, precisa conseguir o primeiro emprego, precisa decifrar o sentimento que embala seu envolvimento amoroso. Em casa, o pai, aterrado no sofá, atravessa os dias em baixa voltagem, e a mãe irradia uma atmosfera negativa que abraça a tudo, como se encarassem paredes no escuro.

Um ano à frente, Aline se encontra entre paredes escuras da ala de um hospital modesto, onde assiste a sua avó, Inácia. Ambas marcadas pela morte precoce que subverte a lógica da vida, ambas unidas por um luto que se institui uma sina geracional. Por isso, apesar da dor que lhe perfura o estômago, Aline se vê obrigada a estar com quem lhe sobrou quando veio a orfandade. Das poucas vezes que sai à noite para um respiro, apenas percebe que a escuridão dentro e fora não mais se distinguem.

Premiado autor de contos, o paranaense Mário Araújo configura, assim, a primeira parte de Breu, sua estreia no romance. Histórias autocontidas, enfileiradas de modo independente, que se distanciam no espaço-tempo, replicando a estrutura da forma breve que o consagrou. Úrsula, Marli, Edna, Olívia, Aline e Inácia vivem encerradas em microcosmos caracterizados pela inevitabilidade com que suas existências são comandadas por seus dramas pessoais. Somente a partir da segunda parte, as narrativas articulam entre si pontos de convergência, revelando que as personagens fazem parte de uma mesma linhagem, cujos parentescos irei ocultar de modo a não estragar a experiência da leitura.

Neste segmento inicial, é possível identificar dois procedimentos de escrita que irão regular a elaboração do enredo ao longo das páginas. O primeiro é a frequência de um relato mental no decorrer da descrição da mise-en-scène, estabelecendo duas escalas de tons narrativos que ocorrem de forma paralela. Voltando ao capítulo do casamento, enquanto Úrsula testemunha e participa dos acontecimentos, um fluxo de consciência vai desencapelando informações que dão conta da causa de seu sentimento de estranheza em meio aos familiares. A um só tempo, a personagem formula uma explicação do porquê de sua atitude enquanto se desdobra na observação de si mesma.

O segundo método é o artifício da memorabilia e da iconografia para compor um painel de vivências sobre o cenário da classe média baixa curitibana. À medida que a trama avança e recua no tempo, generalidades abstratas e elementos simbólicos são utilizados para representar e indicar os períodos remontados: começo dos anos 60, final dos anos 80 e início dos anos 00. E através destes mesmos fatos e coisas que firmam elances no plano da memória, que o passado irá incindir tetricamente nos rumos dessas mulheres fadadas a desmoronamentos físicos e emocionais que as correlacionam numa tradição derrotista, num legado de tragédias.

Afastada da dimensão político-social e da amplitude histórica, a prosa literária se dedica à exploração desse contexto familiar, existências desvalidas do extraordinário cujos pontos de tensão são impelidos por atamentos, rupturas e reatamentos na esteira monocórdia do prosaico dia a dia. Portanto, é uma leitura que cobra atenção redobrada, um tempo mais pausado por conta da complexidade de suas histórias pluriarticuladas, em razão da presença de componentes temáticos que guardam duplos significados. É o caso dos relógios parados que são mencionados em alguns momentos. Num deles, uma personagem bate o objeto contra a palma da mão para tentar religá-lo, enquanto uma outra diz: Não adianta. Todos nós já fizemos isso aqui em casa. Traduzindo: não adianta tentar manipular o tempo, se o destino está traçado de modo inalterável.

Outras referências, naturalmente, repletas de significações são as figuras femininas. Embora façam parte de uma instituição patriarcal, no qual as decisões sumárias competem aos homens, são elas que movimentam o fluxo caudal que convulsiona o espaço subjetivo. Os desejos e os ódios reprimidos, as contradições e a culpa permanente, a angústia concreta e o signo do fracasso, a personalidade volátil e o jogo de aparências. Muitos desses sentimentos e estados de consciência se verbalizam em reflexões profundamente sensíveis que, com muita competência do autor, transmitem uma real experiência do vivido. O trecho em que uma mãe descreve a dor da perda recente da filha é de uma força avassaladora. Outra vez as camadas se interpõem, e o drama interiorizado comove enquanto o curso dos fatos indigna.

Breu insere, em sua escrita de alto nível técnico, dispositivos sensoriais, de modo que o leitor interprete os desamparos de suas protagonistas e consiga visualizá-las em corpos físicos que seguem quando as páginas não dão mais conta de acompanhar suas trajetórias. Um romance de fronteiras abertas, no qual seu interior se ramifica no exterior da imaginação, orientado, em grande parte, pelo determinismo da morte, embora entendendo a finitude e o luto como condições a serem decifradas. A certa altura, o narrador comenta: (…) a ideia de morrer só é tolerável quando os filhos, ou pelo menos um filho, está presente na hora de sua morte, dando a ilusão de que tudo continua. A vida dos pais se prolonga na dos filhos, este é o sentido de tudo. E, talvez, esteja aí o assunto central do enredo: viver na transversal dos dias, na negação daquilo que possa fazer sentido.

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Livro: Breu

Editora: Faria e Silva

Avaliação: Bom

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