Escrita em modo combativo

Crítico de respeito e, acima de tudo, um leitor de vasto alcance, Ronaldo Cagiano chegou a um nível de apercepção em que seu conhecimento literário é o moinho ao mesmo tempo que a matéria de sua produção artística. Seus escritos são produtos da união entre experiência do vivido e componente imaginativo, a partir da qual se destaca uma intertextualidade que não é estabelecida através da fria superposição ou do empréstimo, e sim dos livros e dos autores que abrasam sua formação cultural e visão de mundo.

Tal procedimento é facilmente observado em Todos os desertos: e depois?, sua mais recente seleta de contos. Para além da formulação do argumento, cada enredo traz o compromisso de abrigar as referências, as influências e os tributos do autor, como que imantados por um signo pessoal mediante o qual a ficção se sustenta numa literariedade que visa se repercutir no leitor. Porém não através de um didatismo barato e arrogante, mas de pontes que conectam a leitura a outras leituras fora dos limites paginados.

Cagiano demonstra uma lealdade inabalável à bibliografia afetiva da qual se abasteceu a todos esses anos, repassando e reverenciando as matrizes elementares ao seu processo de composição. Não por menos, faz questão de mapear a antologia com citações de autores que, por conta de circunstâncias variadas e obscuras que fizeram com que suas obras não alcançassem uma notoriedade merecida, possam chegar até o leitor, ainda que por meio de luminosos fragmentos.

É um livro de dezenove textos e dezenas de outros filiados, uma coletividade que, de uma forma sumária, trata desta possibilidade de perpetuação através da literatura, de continuar ao longo, de ser transmissível, de prevalecer numa hora dissonante, aqui, mas existindo em outra latitude, como escreveu Jeter Neves. O ofício da escrita na qualidade da manifestação mais germinal e libertária, pela qual se pode dialogar consigo e com aqueles que lhe precederam, uma voz que segue, quando a vida não mais está. Por este prisma, a definição, se necessária, de um tema central seria o tempo. A permanência diante da areia da ampulheta, a finitude explorada em suas múltiplas noções.

É o caso de “Invasora”, narrativa que abre a antologia. Uma barata com uma consciência kafkaniana, encafuada em meio aos bancos de uma igreja, desvela as mentiras e os segredos dos fiéis e do sacerdote, refletindo se vale existir após uma hecatombe com a vidência da sujidade da vida. “Óbito nº 75.888” acompanha o descaso das pessoas que orbitam um serventuário desparecido, fazendo uma elegia a um escritor real que morreu solitário e esquecido, desprezado igual a maioria dos escritores no Brasil. Enquanto “No banco” se constitui de um diálogo amargo entre dois funcionários acerca da tecnologia e dos prazos infernizando a humanidade, com citação designativa a Luiz Vilela.

Escritor com vivência em cidades dentro e fora do país, suas histórias se passam em lugares que residiu e lhe emprestaram suas idiossincrasias, revisitando, como de costume, o cantão mineiro de Cataguases, município onde nasceu e lhe recruta para sua atmosfera memorialista. Outro aspecto identitário é a inquietação decifrável em seu fazer literário, transparecendo sua posição política, seu inconformismo, sua adoção ao uso do mecanismo inventivo como dispositivo de força combativa tanto simbólica quanto social.

“Espectro dissonante” exuma os ossos da ditadura militar, os fantasmas tirados de armários na última eleição que voltam a vilipendiar o povo brasileiro, contra os quais a voz narrativa vibra em falas duras que parecem dublar a opinião de seu criador. Um ato de protesto contra o apagamento daqueles que foram trucidados “sob ordens de Médici, Costa e Silva, Fleury e Brilhante Ustra”, um apelo de esperança que se verbaliza numa sentença ambígua: “Deus é muito longe”.

Situada nesta bifurcação entre o aterro histórico e o magma filosófico, a vida moderna é derivada de uma matéria inerte, uma náusea e uma indisposição orientada por pensamentos sartrianos e nietzschianos segundo os quais a verdade não passa de uma ilusão, “viver é irremediável”. “Homem invisível, cidade proibida” narra a asfixia de um cidadão incauto consumido pela Brasília que nasce; “Paralelo 16: Miragens” é a Brasília com dentes, febril e selvagem, onde “se é obrigado a fazer das tripas coração, de vender a mãe para manter o emprego”. A trilogia candanga se fecha com “Via-crúcis”, a Brasília que desnatura aos poucos, convertendo a carne em massa burocrática.

Na mesma proporção em que as agruras sociais são contadas de dentro, a comunicação com outras obras buscam retratar o estar vivo numa mundanidade estéril e massacrante. “O mundo lá fora” soa como um trecho desgarrado de Esperando Godot. Em “O enfermeiro acidental”, o paralelismo é com o conto machadiano “O enfermeiro”, no qual um sujeito aceita o emprego de cuidar de um coronel de temperamento difícil, levando a estudo sobre a degeneração. “Constantinopla” é um passeio nervoso pelas mazelas que atraem o passado, estabelecendo convergências com as narrativas de “Hóspede secreto”, coletânea de Miguel Sanches Neto, incursões assombradas pelo espectro da melancolia. “Há uma tristeza comprida nisso tudo e não me sinto à vontade no agora”, declara o personagem-narrador.

Todos os desertos: e depois? semeia a visão consciente de um autor completo através de recortes da problemática moderna, buscando um espelhamento para seu desconforto e inquietude na literatura. Um processo de criação rigoroso, no qual o imaginário adquire a consistência do real para questionar os contextos político, social e cultural, e transcender as margens do texto de modo que, a partir de sua rede de referências, o leitor possa enriquecer e ampliar seu plano de reflexão.

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Livro: Todos os desertos: e depois?

Editora: Patuá

Avaliação: Muito bom

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