Retrato agudo da vida familiar

Faz parte de uma longa tradição do romance brasileiro a conversão da experiência do vivido em componente ficcional. Histórias constituídas por uma argamassa plasmada pelas incursões geográficas e os interiores das casas que armazenam as referências do autor, a memorabilia que se correlaciona ao seu universo biográfico.

Escritora amadurecida, com uma profusa carreira literária, Eltânia André tem sua vida marcada por residências transitórias, morando atualmente em Portugal. Essa existência rica e variada, de bagagem intelectual e códigos particulares, incide e renova a fonte de inspiração da maioria de seus enredos: a Minas Gerais de idos tempos. Não estando ao mesmo tempo que nunca tendo saído, são os aspectos do ambiente e das pessoas que vibram em si e em seu novo romance.

Terra dividida se situa numa localidade fincada entre os territórios mineiro e fluminense, uma cidade que “não se desenvolveu, vive em lamentações, escrutinando o passado, ressuscitando melancolias, importando sombras”. O título também representa o formato no qual o texto se desenvolve: a partir de fragmentos em que múltiplos narradores se alternam, combinando fluxo mental com relato do curso presente de modo a compor um vigoroso retrato da relação familiar.

Trata-se dos Almeida, herdeiros de uma casta abastada que entra num processo de decadência financeira. A geração de irmãos formada por Neida, Naira, Nádia, Nena e Almeidinha, pai de Basílio, abandonado pela mãe, depreciativamente nomeada de Madalena ou Antígona. O círculo polifônico se completa com a empregada Socorrinha.

Tais personagens narram e refletem sobre o tempo e o espaço em que estão contidos, resgatam lembranças de modo a significar circunstâncias e decisões, explorando os relacionamentos entre si na condição de agentes e testemunhas dos fatos, tendo o símbolo da casa como elemento inaugural e centro nervoso de seus dramas.

A ela parecem eternamente presos, feito fantasmas que, ainda que desgarrados, endereçam ali seus assombros. O procedimento incorporativo de escrita, por onde o signo autoral magnetiza a literariedade, surge neste contexto, de maneira que a autora partilha a própria formação individual na perspectiva e nos traços psicológicos de seus narradores.

O discernimento, a ideologia, o cenário da memória e as coisas afetivas se distribuem em características que os distinguem e marcha a trama. Neida, a mais velha dos irmãos, passa os dias na varanda, ancorada, tendo a única companhia do gato Getúlio, enquanto rumina a nostalgia, acostumada com “a sonolência, com a debilidade das horas”.

Com sua morte, é a vez de Socorrinha verbalizar seus anseios e fornecer uma visão externa do desconcerto que se desenha, com Naira tendo de assumir, a contragosto e insegura, o papel de alicerce da família. A preocupação com o saldo bancário, em conservar o patrimônio dos pais, contrasta-se com as atitudes de Nádia, que conseguiu, numa espécie de livramento de maldição, sair da cidade e firmar um futuro de sucesso, que começa a ruir e, de forma insidiosa, puxá-la de volta.

Nena, a mais pueril, que toca uma sapataria, conserva um sentimento secreto por Almeidinha, um homem inculto, traumatizado pelo adultério e o desquite de Madalena ou Antígona ou Excomungada, protelando sua responsabilidade de pai para com Basílio, um jovem rebelde, que lida com os impulsos da liberdade sexual. O rapaz ainda tem de processar a aparição da mãe, uma estranha ao seu mundo que, pelo que comentam, encena uma reaproximação em busca de recompensa financeira.

Sintonizando a frequência dessas vozes, os discursos desvelam uma fervura de sentimentos reprimidos, enfrentamentos e contradições, envolvendo autoengano, apatia, fúria, rancores, mentira, erotismo e tristeza. Os depoimentos, em certos momentos intensos e transcendentes, ora apresentam um lirismo contagiante, de uma beleza intuitiva, ora se recrudescem num inconformismo que se pratica através de uma verve politizada a qual, nas entrelinhas, não diz respeito apenas ao plano da ficção.

Terra dividida é um romance cheio de camadas e possibilidades interpretativas, que cobra uma leitura mais atenta, remansosa, deixando-se passar o máximo de tempo com o texto para desvendar seus mistérios e a qualidade técnica de seu criador. Eltânia André segue a cartilha dos clássicos, dialogando com obras-primas de seus conterrâneos, a exemplo de Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, e Ópera dos mortos, de Autran Dourado.

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Livro: Terra dividida

Editora: Laranja Original

Avaliação: Muito bom

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