Fuga da ordem cotidiana

Multipremiado autor de poemas, Paulo Henriques Britto leva a estilização da linguagem para seu retorno ao conto. O castiçal florentino reúne nove narrativas nas quais as experimentações com a prosa se destacam ao argumento, geralmente situações banais regidas pelo signo da eventualidade.

Os personagens – quando podem ser rotulados como tal – descobrem-se impelidos pelos ventos do destino, até se depararem com uma vírgula do acaso que pode mudar suas vidas por completo. É o que ocorre com o narrador de “O castiçal florentino”, texto que abre a antologia.

Um engenheiro que deambula por uma noite de verão, de repente se vê envolvido com um grupo de estranhos que fazem parte de uma companhia teatral. Seu comprometimento aumenta à medida que nutre um interesse amoroso por uma das integrantes, até um lance de sorte o livrar de uma ameaça imprevista.

A mesma dinâmica modula “Tema e variações”, conto seguinte, no qual uma amizade entre um trio de músicos sofre uma ruptura quando, por uma decisão medíocre, um deles conquista a fama através do mérito impróprio. A angústia potencializa a culpa do protagonista diante da hipótese: e se as coisas tivessem tomado um outro rumo?

As narrativas se distinguem em modelo e estilo, do relato clássico ao discurso de agradecimento, encontrando o componente identitário não no formato ou na temática, e sim num procedimento de escrita marcado pelo requinte, pela regulagem do ritmo, pela coordenação de frases urdidas com precisão.

Tais características se avultam em “Cartas”, que se arma através de um exercício de possibilidades, e se cristalizam em “História sem nome”, em que se desvela as engrenagens do conto, movimentos de um mecanismo de conjunções e disjunções dentro de um espaço geométrico, a estrutura infixa de um puzzle.

“Um santo” e “Notívagos”, que surgem na metade final, prendem suas fitas de enredo num moto-contínuo, descrevendo os dias de um guerrilheiro que se esconde dos militares num povoado onde, de mendigo, passa a ser visto como uma divindade, e a incursão a esmo de um homem por mini cenas ambientadas na cidade às escuras.

Fechando a antologia, “Relato” é o texto mais sofisticado. A partir do esforço do personagem principal em adaptar o livro de um autor obscuro para o cinema, o conto mescla descrição biográfica, fluxo narrativo e carreiras de diálogo, encerrando com uma crítica sobre o filme que, em certos aspectos, soa como um flerte metaficcional.

O castiçal florentino não traz, em seu conjunto, nenhuma narrativa memorável e, para alguns leitores, pode desagradar com suas voltas e contravoltas, com a condução do argumento levado até a exaustão, contudo é uma aula de escrita, que deve ser lido pela riqueza do fazer literário, para apreciar as ferramentas de um mestre em ação.

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Livro: O castiçal florentino

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Bom

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