O extermínio de crianças

Os contos de Estão matando os meninos, de Raimundo Carrero, rompem com a tradição literária do gênero e se caracterizam pela verve da crônica. Embora as 14 narrativas que constituem a mais recente antologia do escritor pernambucano se estruturem da consistência imaginativa, a base do argumento advém do olhar treinado para capturar os flagrantes do cotidiano, para reagir aos fatos que comumente são explorados pelo espaço dos jornais. Neste caso, um dos mais revoltantes e dolorosos temas: a mortandade de crianças durante operações policiais em comunidades carentes; em consequência da indiligência do Estado; por conta da miséria, do vício e da violência doméstica.

Com uma precisão que se faz do controle técnico e da urgência de protesto, os textos se inspiram, na maioria dos casos, em tragédias que repercutiram recentemente no noticiário nacional. Casos que mobilizaram a opinião pública, a exemplo do assassinato de Ágatha Félix, de 8 anos, atingida por um tiro disparado por um policial militar no Rio de Janeiro, e da morte de Miguel Otávio, de 5 anos, que caiu do 9º andar de um prédio de luxo no Recife, quando estava sob os cuidados da patroa da sua mãe.

A indignação do autor, porém, não se expressa apenas na postura com que recompõe, de maneira inventiva, estas histórias, e sim num estilo de escrita que opera num modo reativo. O leitor é colocado na posição de cúmplice, instado, através da experiência da leitura, a sair de um papel passivo e também se manifestar. Tal mecanismo, muito bem executado, ocorre por meio de questionamentos que transcendem aos limites paginados e de frases de impacto.

É o que acontece em “O artesão”, conto que abre o livro. Um pai exprime, entre o desabafo e o lamento, entre a dor e a revolta, a morte do filho com um conhecido de bar. Suas considerações, que emergem do rasgo do luto na memória, funcionam como fio condutor da trama, além de ecoarem em gritos desesperados por explicações que cobram e instigam um debate (também) fora do âmbito da ficção. (…) não é luxo demais reclamar a morte de um menino? Tanta mais coisa pra reclamar, tanto adulto morrendo, e você vem logo reclamar a morte de um menino? Que é que vale um menino?, questiona-se, questionando a sociedade.

O procedimento de estimular os nervos em prol de um pensamento inquietante se estabelece a partir de depoimentos abrasivos, que desferem golpes contra qualquer indiferença ou falta de reação. Em dado momento, o personagem diz: Só precisa ser menino. E matam. Sem mais: menino. Quer dizer, se for à escola morre mais rápido. E fica evidente o signo do livro em selar um pacto, no qual a preocupação é com a verdade que se guia pelo caminho da literariedade, em passar pelo terreno das injustiças sociais de forma a usar do envolvimento criativo para estimular uma consciência crítica.

Em “Meninos ao alvo, atirar”, a morte da menina bailarina (referência a Ágatha) por uma “bala perdida” se desdobra em outro assassinato causado pelo preconceito racial. “Tortura em dia de fome”, a pobreza enquanto sedução para o crime e refúgio do vício, leva um menino a testemunhar a desgraça humana tanto em casa quanto na rua. Carrero conta de dentro que a violência é parte de um sistema corrompido, causa e consequência de uma realidade massacrante, marcada pela carência completa de uma alternativa digna de sustento, de qualquer registro de afeto. A indigência plena deformadora do caráter, que, no contexto da infância, também é um tipo de morte.

No segmentos seguintes, a antologia diversifica sua temática, mas continua explorando pautas prementes e atuais, a exemplo do racismo estrutural, da luta pelos direitos democráticos, da violência contra a mulher e da pandemia do coronavírus. Em “Vidas negras importam”, o autor referencia o assassinato do negro estadunidense George Floyd por policiais brancos, ao passo que o perfil “As meninas lideram o mundo (bom)” cita o ativismo de Malala e Greta Thunberg, “a pirralha, com seu ar ingênuo de criança inquieta”, que “cruza mares para enfrentar os poderosos com um rosto assustado, dando lições de amor e de natureza”.

Carrero pesa e suaviza a mão, reverberando mazelas em diferentes escalas e ambientações, da favela do sertão pernambucano ao púlpito das Nações Unidas. Com uma prosa desataviada e rica, de frases bem ordenadas e diretas, seu comportamento de cronista pouco cede espaço para o jogo com a linguagem, a exceção de “Judá, a história”, sobre um futebolista que tem sua carreira arruinada após perder um pênalti. Em certo momento, o personagem toma uma pedrada na cabeça e, pela analogia dos fatos, pode ser interpretado como um tiro de misericórdia ou, pelo elemento que representa em todo o livro, como uma bala perdida.

No entanto, este é um registro raro numa antologia que se dedica a se aproximar o mais íntimo da realidade, tanto em sua fonte de criação quanto no método de reportar. Mais que uma recapitulação de tragédias, Estão matando os meninos mostra como a sociedade perdeu seu senso de absurdo ao normalizar o extermínio de crianças.

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Livro: Estão matando os meninos

Editora: Iluminuras

Avaliação: Muito bom

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