Painel febril da linguagem

Não subestimem Terra dentro, de Vanessa Vascouto, por conta de suas dimensões franzinas. O formato semelhante ao de bolso, com um pouco mais 90 páginas, guarda um painel intenso de cores, sons e sentidos, regulados por um virtuoso procedimento de estilização da linguagem.

Trata-se de uma mistura de modos narrativos, no qual o aspecto conotativo serve de chave para a articulação das palavras como que numa fervura criativa de suas flexões e significados, plasmando uma polifonia que combina neologismo, onomatopeias, vocábulos regionalistas, distensões vocais e prosa poética. Uma experimentação fonética guiada pela oralidade popular, a partir de uma disritmia de falas que produz uma certa diapasão rudimentar, um processo de transição do sonoro para o visual.

Passada num lugarejo não nomeado – pelo contexto, parece no Sul do Brasil -, a trama acompanha personagens que compõem dois núcleos familiares, sobressaindo-se três irmãos que vocalizam as tensões dramáticas, as tragédias, os fundos psicológicos e o nível de relação entre eles. É algo como uma narrativa coral, em que os monólogos fatiados de cada um se alternam, seguindo uma ordem inalterada e mesclando observações do curso presente, reminiscências e fluxos mentais.

Testemunha ao mesmo tempo que agente dos fatos, o trio se divide em Rita, a irmã do meio: sensível e enredada em seu casamento com André, o Maridinho; Mirna, a irmã mais velha: libertina e desbocada, que tem escapadas com um homem casado, apelidado de 8e23, pois é o horário que sempre aparece para transarem; e Mosquito, o irmão caçula, violento e fascinado pela menina Rosa, filha de Nito, a quem odeia cegamente em razão da descoberta de um segredo sujo.

Cada qual tem sua caracterização formada pelo desbravar de seus pontos de vista num mesmo universo social, onde o componente nuclear é o impacto da convivência com o pai, sofrido e fraco, e a mãe, moralmente degradada, que se embriaga e sai pelada pelas ruas. Vascouto usa desses relatos para explorar o espaço em que se situam e a natureza de seus personagens, através de um mecanismo ora de espelhamento, ora de complementação.

Durante o desenvolvimento do enredo, a fala de um irmão versa sobre um ocorrido até certa parte, que será concluída, mais adiante, pela fala de um outro irmão ou descrita de uma maneira diferente da apresentada no começo. Uma engenharia de escrita que remete ao arranjo das peças e a montagem de um puzzle.

Outro método recorrente é a amplificação do tratamento figurativo nas atitudes e na visão de mundo dos narradores, constituindo uma espécie de sinestesia galopante, de onde se manifestam emoções febris e delírios pictóricos, em alguns casos desvelados por meio de versos acidentais. Estranhamente com essas abstenções, afastamentos e ruídos, que os discursos se unificam e fazem sentido; estranhamente com o descompasso textual levado ao frenesi, os fragmentos configuram uma estrutura sólida e bem urdida.

Terra dentro é sobre indivíduos de carne de terra e paixões de sangue que habitam um plano edificado por uma escritura vibrante, por vezes maviosa. Pela substância da prosa tem um quê de Guimarães Rosa, pelo ritmo marcha à Raduan Nassar, e pela dinâmica temática evoca a quadrilha de Drummond, mas nunca se reverencia e se sustenta por suas qualidades. Lançar-se, de peito aberto, a experimentos da linguagem sem derrapar no maneirismo e na pieguice, afinal, é digno de elogio.

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Livro: Terra dentro

Editora: Reformatório

Avaliação: Bom

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