A substância dos fantasmas

A chilena Alejandra Costamagna manipula a substância dos fantasmas em Sistema do tato. Finalista do prestigiado Premio Herralde de Novela, o livro enreda histórias dentro de histórias que pareciam enterradas, embora vivas quando pasmadas pela memória feito um sentimento suspenso no tempo. A rixa eterna entre dois países por um estreito de terra, a imigração imposta por conta da guerra, um nome de família que se evola, o passado reaberto que manifesta uma hipótese sobre ancestralidade e pertencimento.

Em meio a essas vagagens, que servem também de solução estética para o formato – não convencional, movediço, sem marcos definidos de início, meio e fim -, o tema central é a busca pela identidade. Ania, uma professora primária desempregada que tira seus pesos chilenos levando os animais dos outros para passear, recebe o pedido do pai de cruzar a Cordilheira dos Andes e representá-lo no enterro do primo Augustín, o último bastião de sua linhagem paterna.

Assim, embarca para a Argentina, especificamente para a cidade de Campana, onde passava os verões da infância. O retorno ao local remoto, a casa em que ficava e a interação com alguns remanescentes, irá lhe resgatar lembranças de quando era chamada de “a chileninha” e os países, sufocados por ditaduras, viviam uma tensão velada em razão do domínio da Patagônia. Augustín, pela diferença de idade visto como tio, um indivíduo um tanto solitário e retraído, era a sua habitual companhia pela falta de um contexto lúdico, além de Cariglio, amigo de Augustín, que lhe repassava livros com títulos estranhos, geralmente conteúdos de terror.

A partir deste reatamento a um momento que pensava incinerado, a personagem vai conjecturar sobre sua real nacionalidade, avaliar sua vida ao lado do pai – e também da madrasta, com a qual não se dá -, o relacionamento com um homem com o dobro de sua idade e a ausência da mãe. Também, nessas visitações a lances pretéritos, irá exumar a história de uma personagem tão elementar, que tem força para disputar o protagonismo consigo. Nélida, mãe de Augustín, uma imigrante italiana, de Piemonte, que, em razão da Segunda Guerra, teve de se exilar na América do Sul, onde acabou por se render a um casamento arranjado.

Para narrar – ou reconstituir – tal episódio, Costamagna revela a chave de formação da novela: o uso do material (auto)biográfico, no qual a ficção serve para ocupar os vazios que a memória foi incapaz de completar. Isso fica formalizado com a presença de várias fotografias de Nélida ao longo das páginas, retratando de espontâneos a passeios de família (N. do resenhista: é a mulher fazendo careta na capa). A autora ainda se vale de outros artifícios para assegurar a veracidade dos atores da trama: documentos, cartas, exercícios de datilografia, excertos enciclopédicos e trechos de livros. A influência indutiva dos elementos de arquivo dá uma contraparte de segurança para o texto se deflagrar em incompletudes e rupturas, mesmo assim sem se desgarrar da temática central, sem nunca deixar escapulir a leitura do foco de perseguição.

A proposta clara de Ania é investigar se a hereditariedade determina o pertencimento, levando sua criadora a questionar – questionando o leitor – se nos formamos durante o presente em que vivemos ou somos produtos estabelecidos num passado. O triunfo da escrita de Costamagna é representar esse dilema na articulação da linguagem, procedendo com os verbos de modo que, de uma frase a outra, a linha dos fatos avança e recua no tempo, estreita-se e se amplia a cordilheira que separa o histórico e o pessoal.

Ao fim, o que ressoa são rumores de dentro do abismo, a tentativa difusa de cruzar as fronteiras da memória na execução da arqueologia de um país, da escavação do campo em que estão fincadas as raízes familiares. Sistema do tato é o silêncio para se ouvir vozes: as vivas e as mortas.

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Livro: Sistema do tato

Editora: Moinhos

Avaliação: Bom

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