A mulher que desapareceu

Nem sinal de asas, de Marcela Dantés, é inspirado numa dessas histórias em que a realidade parece cobrar a suspensão da descrença. Em julho de 2017, o corpo de uma mulher foi encontrado mumificado em seu apartamento no noroeste da Espanha. Segundo o cálculo dos vizinhos, ela deveria estar morta fazia cinco anos. Porém, como era uma pessoa introvertida sem parentes próximos, o cadáver confinado não exalou mau cheiro e o aluguel era pago regularmente através de débito em conta, sua ausência não foi notada, pois sua existência, em meio a uma centena de inquilinos, habitava o esquecimento.

É pela investigação desse significado metafísico que a autora mineira irá conduzir o leitor nos veios de seu primeiro romance. Mais que exaltar o insólito do fato, o propósito do enredo é submergir/esquadrinhar o espaço da natureza da protagonista, onde esta lida com seus dramas íntimos e reage a traumas que a perseguem da infância ao presente. Um dobre entre doenças que lhe acometem a compleição física e o estado psicológico, perturbado pelo tédio, pelo cansaço, pela melancolia, pela desistência da vida.

A conversão do material biográfico em ficcional dá forma à história de Anja. Filha de Dulce, branca, e de Francisco, negro, a personagem sofreu, desde o nascimento, o preconceito da mãe, que lhe passava suco de limão na pele na tentativa de clareá-la. O resultado foi o surgimento de bolhas abrasivas, que lhe deixou com manchas rosas irreparáveis. Seu nome também é outro estigma que carrega, pois odeia sua significação religiosa, assim adotando o pseudônimo de Ângela. A perda precoce do pai, que nunca superou, e o relacionamento conturbado, um misto entre desprezo e interdependência, com a mãe lhe asseguravam que nada de virtuoso e abençoado deveria lhe designar.

Assim, vive isolada num apartamento, na companhia apenas de um gato de nome Rinoceronte e plantas em vasos. Tem um emprego na assistência de idosos numa clínica de repouso, onde a convivência relapsa com Adriano é o mais próximo do que poderia se afigurar uma amizade. A mãe é uma presença fantasmagórica que vaivém no tempo, assombrando-lhe de episódios remotos a um passado recente, quando foi morar consigo nos dias derradeiros de um mal incurável. Sua convivência com a morte em vários aspectos se acentua no momento em que ela própria se descobre marcada pela finitude. E a entrega (voluntária) é a o ponto de partida para desaparecer a tudo.

Dantés tem em mãos um bônus e um ônus. A vantagem de ter como base um acontecimento tão extraordinário que o componente imaginativo é mais um aditivo que um catalisador. Por outro lado, essa é uma história da qual se sabe previamente o final. De modo que o trabalho de escrita criativa se concentra na formulação de um enredo que seja atraente a ponto deste intermédio prender a atenção do leitor com um desenvolvimento que administre sua tensão nas partes de sua contextura.

A autora, portanto, investe na elaboração de relatos da memória que se refletem e/ou expressam emotivamente a reação da protagonista para a sina que lhe consome, a decisão de se desconectar de si, de se desconectar do mundo. Para isso, recorre a fragmentos de textos que se interpõem a planos concretos e subjetivos, mirando especialmente a interação conflituosa entre Anja e Dulce, e a verbalização de estados de consciência que rondam sempre a beira de um abismo. Um outro personagem que ganha voz própria é o porteiro Ramiro. Testemunha ao mesmo tempo que agente incidental dos fatos, ele estabelece um tempo posterior à achada do cadáver no apartamento, esboçando comentários escrotos, contando o agora e resgatando lembranças, desvelando, pouco a pouco, um segredo vinculado a um ato ignóbil.

A esses pilares o romance finca seu mecanismo de compactuação, revezando o foco em cada um deles, porém acaba preso a uma rotina e se torna monocórdio e formulista. Da metade para as últimas páginas, muitos dos assuntos são frequentados num método repetitivo, repassados de modo a ganhar informações adicionais sem grande relevância e fica a clara sensação de que o texto está se prolongando mais que o devido ou andando em círculos. Mesmo a inclusão tardia de alguns personagens, a exemplo da criança e de um suposto interesse amoroso, acaba não tendo profundidade e não abre possibilidades narrativas.

Marcela Dantés é uma escritora madura, com elegante coordenação de frases e controle atmosférico, que levou sua estreia no conto a ser indicada a prêmio. Contudo seu romance sofre com um conteúdo pouco versátil e dilatado que, dado o tema, soa como o lamento de uma nota só. Um bom livro de reconstituição ficcional da realidade, que seria um primor se fosse mais enxuto.

***

Livro: Nem sinal de asas

Editora: Patuá

Avaliação: Regular

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