Infância em zona negativa

Space invaders, de Nona Fernández, é uma novela de cerca de setenta páginas, e esta esqualidez reflete diretamente no potencial de imersão de seu conteúdo. Com uma proposta de escrita lacunar, as dimensões do vazio fazem com que o recurso formal da elipse se torne um exercício de superficialidade. A qualidade do celebrado livro da escritora chilena fica, então, por conta do efeito estético. Todo o escopo do enredo tem como inspiração o jogo de videogame do título, no qual uma astronave flutua na tela de modo a destruir uma onda de naves alienígenas. Com isso, os relatos parecem se encontrar num zona negativa, onde memória e sonho colidem e se desintegram.

Armada sobre fragmentos avulsos, a trama persegue, em saltos no espaço-tempo que compreende (em sua grande parte) o período da ditadura de Augusto Pinochet, um grupo de amigos que se conectam por meio de suas aproximações com a obscura história de Estrella González, uma colega de classe que, em determinado momento, desaparece. Um deles se recorda dos cabelos, dos olhos e do timbre da voz; outro, do que a menina levava para o lanche. O colega Riquelme revive uma passagem em que estava na casa da colega jogando Space invaders, no Atari, e lhe marcou o fato de o pai dela usar uma prótese de madeira na ausência da mão, enquanto Maldonado conserva as cartas que recebia da amiga – algumas delas estampam as páginas – emitidas de terras distantes.

Ocorre que tais episódios fazem parte de um passado incinerado (em vários sentidos), portanto o movimento dispendioso de exumá-los provoca uma corrupção em suas recomposições não os distinguindo de lembranças ou de experiências criadas pela substância onírica. É como se o ambiente insidioso em que cresceram, de medo institucionalizado e incertezas permanentes, tivesse desnaturalizado a infância dos personagens num nível incontornável, que não conseguem se identificar sem a interferência do assombro. Por isso, a natureza confusa do que viveram, pois reverbera neles um trauma histórico.

Ao leitor, porém, essa bruma de suspeição se dissipa pouco a pouco. O sumiço de Estrella está ligado a um dos crimes de maior comoção durante o regime militar chileno: o caso Degolados, no qual três membros do Partido Comunista Chileno (um artista plástico, um sociólogo e um professor) foram sequestrados e assassinados. O pai da menina, um agente nacional de repressão, foi um dos executadores. Deste modo, o carabinero e sua família tiveram de se encafuar em outras bandas. E aí está um dos problemas do livro de Fernández: sua concepção de alcance parece limitada ao imaginário nacional, conta sempre com o conhecimento prévio do leitor.

Confesso que, em vários momentos, tive de pausar a leitura e dar uma googlada para me situar na trama. Além do fato supracitado, outras situações de prisões e mortes efetuadas pela máquina de repressão são abordadas, porém de forma breve e fugidia, sem explicar ao menos a que contextos se referem. Essa mesma falta de profundidade ocorre com a gama de personagens que circulam pelo enredo, tão rasos que muitos deles se resumem a um sobrenome, deixando confuso até se são mulheres ou homens.

Cobra uma disposição do leitor em se deixar levar pelo fluxo imprevisto dos fatos, supondo e fazendo encadeamentos incidentais, apreendendo a ambientação e posicionando os atores da trama nessa contextura de cenas e situações mobilizadas pela experiência infantil, em que o clima de sonho ou de regressão vai desvelando o passado de modo a responder a uma pergunta. Mas qual é a pergunta se se sabe a resposta? Talvez a ideia da autora não seja resolver o mistério, mas propor a sensação de vivê-lo. Talvez.

Mais bem-apresentada é toda a concepção formal referente ao jogo de videogame. É uma sacada e tanto a montagem dos capítulos como “vidas” que se extinguem até o game over, numa analogia lúgubre com o que se passava durante a ditadura. Da mesma maneira que a mecânica do Space invaders serve de metáfora para o regime militar (a astronave) destruindo os grupos clandestinos (as naves alienígenas) que se organizavam e invadiam seu império espacial. Há ainda uma manifestação simbólica que se acomoda no rastro dos acontecimentos, instigando o raciocínio de que males contemporâneos, a exemplo do feminicídio, são transmigrações do barbarismo do sistema autoritário.

Space invaders explora os efeitos dos anos de chumbo sobre um país, projetados na perspectiva reduzida de um grupo de crianças que viviam seus dramas íntimos sem o discernimento total dos horrores contidos em atos políticos. É algo como ilustrado em Formas de voltar para casa, do também chileno Alejandro Zambra: Enquanto os adultos matavam ou eram mortos, nós fazíamos desenhos num canto. Enquanto o país se fazia em pedaços, nos aprendíamos a falar, a andar, a dobrar os guardanapos em formas de barcos, de aviões. Um romance, aliás, que compartilha o mesmo recorte de tempo, porém com um estofo mais teso e bem-acabado.

***

Livro: Space invaders

Editora: Moinhos

Avaliação: Regular

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