Todas formas de amar

Erra quem tem a impressão inicial que Escobar, novela de Márwio Câmara, é um livro sobre amor. De fato, em sua estreia na narrativa longa, o jornalista carioca explora os caminhos labirínticos que levam a variadas formas de amar. Em movimentos de investigação por linhas intrincadas – e, por vezes, incontornáveis -, a narrativa se formula como que na busca por completar um puzzle no qual a totalidade da imagem está inteira em cada uma das suas partes. Assim, o desafio não é decifrar o enigma associado ao sentimento, mas percorrer vários momentos, várias vozes, vários pontos de vista, de modo a acessar as razões de sua indissolubilidade.

Por isso mesmo, a trama dá conta de um meio onde circunstâncias não mostradas, às vezes subentendidas, antecedem e sucedem o que o leitor tem acesso. São cenas movediças no espaço-tempo, faces de uma estrutura fractal contendo um sentido próprio em seus limites, porém muito bem articuladas e figuradas de modo que suas bordas são sempre abertas, ainda que conservem um elã magnético entre si, a noção de que, percorridos em linearidade ou aos saltos, os fragmentos obedecem a um acabado tácito.

Quem guia o percurso – ou que tem a fonia principal – é o personagem-título. Sugestivamente emprestando distinções do autor, Escobar é também do Rio, jovem, dividido entre o prazer do jornalismo literário e o ganha pão no trabalho de assessoria impressa e nas aulas de literatura num cursinho pré-vestibular. Coleciona relacionamentos temporários, que quase sempre terminam mal, faz análise sobretudo por conta de uma lacuna parental e alimenta uma paixão platônica por uma poeta nomeada de R. Tal um flâneur de um território íntimo, ele traça um caminho errante para se (re)conhecer a partir do que de si vibra no outro, atormentado pelo impacto do inesperado suicídio de um amigo.

Márwio usa do amor, no sentido pluralista e polarizado do termo, como chave para o processo de experiências concretas e metafísicas de seus personagens assombrados por desejos irreprimíveis e traumas de natureza afetiva. Uma escrita composta de experimentações estéticas, reunindo fluxos de consciência, confissões, enlevos filosóficos, prosa poética, conversas, intertextos e referências à literatura, à música e ao cinema, de maneira a criar um movimento acústico no qual a sonância de cada cena repercute o conteúdo ao mesmo tempo que reverbera fatos externos. Ao tentar compreender a decisão trágica do amigo, por exemplo, a sondagem não ocorre nos meandros do ato do personagem, e sim em chamamentos às ruínas pessoais de Sylvia Plath, Pedro Nava, Ana Cristina Cesar e Armando Freitas Filho.

Empenhado nessa operação, a semântica está, por vezes, no que é paralelo ao texto. Uma música ou a menção a um filme é o catalisador para plasmar momentos (a princípio) aleatórios que se justificam em sua fração e se reencontram na visão do todo, ao arranjo de passagens interligadas por um tangente elemento sensorial. O encontro casual de Escobar com Bruno, um jovem angustiado por sua homossexualidade, reflete o fato de o protagonista ter sido criado por um casal de mulheres que, por sua vez, leva ao questionamento sobre a ausência do pai e o prospecto normativa do homem, ecoando, mais à frente, num episódio no qual Bruno se vê, por medo de retaliação, defendendo o prospecto normativo do homem, em que Escobar surge numa participação incidental. Algo como arestas que se tocam ou um labirinto que se sai por onde se entrou.

Outros espelhamentos ocorrem em interpretações (auto)enganosas de formas de amar, com os quais o autor enreda precisos comentários morais. O professor que se relaciona sexualmente com a aluna pré-adolescente e é absolvido por interesses impróprios à vítima; a professora que faz o mesmo e é considerado uma vitória para os meninos. O homossexual que é visto como pária no ambiente de trabalho e o colega que se aproxima dele passa a ser alvo de comentários maliciosos. Com a mesma destreza com que demarca seu enredo com elos situacionais de forma a estabelecer a construção do sentido, Márwio coloca os atores de sua trama em posições de erros, de viver as consequências e os sofrimentos pertinentes ao desacerto de suas atitudes, sem nunca julgá-los ou imputar vilões. Se como expõe, numa frase de Dalva de Oliveira, que “o amor é o ridículo da vida”, o seu livro é também um exercício para se iluminar entendimentos obscuros e deixar o que fazer com a reflexão para cada leitor.

Fernando Pessoa escreveu que “a morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem”, pois os que “espalharam amor veem-se livres dos triunfos que adoram; os que venceram veem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou”. Escobar, como disse, não é um romance sobre amor, e sim algumas possibilidades de interpretação de significados e valores simbólicos constitutivos ao sentimento, subvertidos num fundo dramático marcado por tragédia, luto, paixão não correspondida, dor. Ainda assim, o risco do desastre do melodrama e do clichê é o mesmo, o que torna o trabalho de Márwio Câmara especial. Com um livro maduro e sóbrio, apesar de recheado de emoções, o autor consegue manifestar o efeito de atração dos bons textos e entregar uma pequena joia.

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Livro: Escobar

Editora: Moinhos

Avaliação: Bom

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