Os buracos da máscara

Se a função de uma epígrafe é resumir o sentido ou a motivação de uma obra, nada poderia ser mais representativo que a escolha dos versos de Cruz e Sousa para predizer os contos de Como usar um pesadelo. Embora distantes por um século e adeptos a gêneros distintos, o poeta catarinense e o mineiro radicado na Paraíba Bruno Ribeiro se aproximam numa proposta de escrita no qual os verdadeiros alvos de seus textos se encontram cifrados sob o primeiro plano narrativo. Autores que exploram a transcendência da normalidade e, transitando pelo terreno da transgressão da sensibilidade humana, abordam temas da sua contemporaneidade, sendo o mais premente o preconceito racial.

Filho de escravos, Cruz e Sousa usava, nos anos 1800, de um regulamento sensorial, próprio do movimento simbolista, para anteparar a potência de seus poemas que bradavam contra o regime escravocrata. Em 2021, talvez numa forma de ilustrar o quão inimaginável e perturbador isso é, Ribeiro percorre os caminhos do horror e do surrealismo para tratar do racismo que ganha corpo, nome e vítima constantemente nos noticiários brasileiros. Narrativas situadas numa dimensão regida pela estranheza, onde o processo de composição se nutre da matéria dos sonhos e delírios perversos e assombrosos, porém preservando a integridade de uma consciência crítica.

Um bom exemplo é o conto “Passarinho preto”. Tal qual uma parábola nonsense, o enredo traz o relato de um homem que carrega um ninho com um pássaro preto na cabeça e, por conta disso, sofre uma soma de humilhações e agressões físicas. “Monstros” se enquadra neste mesmo plano alegórico, potencializando o impacto do elemento grotesco ao narrar a rotina de uma cidade amedrontada por um “bicho que não tinha forma, mas era preto”. A princípio, a população tenta conviver com a presença da monstro, até um pensamento fascista se instalar e os habitantes decidirem se armar, temendo que a criatura possa ser o futuro deles, “a repulsa em forma de restos africanos”.

Mais realista e contundente no desenvolvimento de seu argumento, “Três dias sem as meninas” é narrado por uma mulher rica e fútil que maldiz o marido e os filhos, menospreza a empregada e atravessa a rotina com uma visão alienada. A vacuidade que se reifica em si é tamanha, que comete sucessivos atos violentos contra seu próprio corpo e ninguém se escandaliza. A certa altura, ela encontra um rapaz negro deitado na cama do seu filho e comenta que “um fedor brutal” invadiu seu nariz. (…) fiquei cheirando ele para ver se finalmente conseguia entender o aroma dessa raça que as meninas tanto falam. Era um cheiro forte, lembrava carne defumada.

É interessante notar a maneira com que Ribeiro trabalha com uma variedade de recursos técnicos, de modo a imprimir um aspecto estético para cada conto. Sua prosa desidratada, com variações entre o fundo dramático e o curso ágil dos acontecimentos, abre espaço para diálogos sagazes, bem articulados, e acessos a universos ficcionais que retratam as pertubações e os desvios mentais do homem moderno. Como uma máscara de terror que cobre um rosto aterrorizante ou aterrorizado.

Tendo esse molho de chaves em mãos, a possibilidade temática se ramifica e o clima de pesadelo e loucura se desvela, de maneira paulatina, feito uma cena ou um quadro que leitor é convidado a espiar dentro até ser arrebatado por um choque. “Vem me ver” acompanha a rotina de uma estudante que divide o apartamento na Argentina com um cara, que sai do quarto somente uma vez por mês para receber uma caixa misteriosa. Com certa voltagem erótica e tensão atmosférica, o relato destila a experiência da solidão urbana. Por sua vez, o ótimo “A arte de morrer ou Marta Díptero Braquicero” tem como ponto de partida um restaurante ordinário e a imagem de um homem devorando um pedaço de carne com uma mosca se afogando no filete de sangue no canto do prato. Ao se aproximar a garçonete, o vaivém de falas vai se infiltrando em regiões aterradas pela depressão e por abismos afetivos, desumanizando os personagens para a ascensão de um desfecho davidlynchiano.

A citação ao diretor de cinema, aliás, não é meramente ilustrativa, pois o autor incorpora e/ou emula, à estruturação da maioria de seus textos, a plasticidade e a sensação de movimento do formato audiovisual. “Reino animal”, sobre uma família reprimida por um tóxico “homem de bem”, é um roteiro pronto para um curta-metragem. “Guia auditivo e imagético para o fim de uma criança de 9 anos” tem a dinâmica de um experimento sinestésico, enquanto “Talvez seja o paraíso”, um conto longo, montado em breves episódios, pode ser pretendido como um argumento seminal para um seriado sobre um mundo distópico, controlado por tipos brutos e encarniçados.

Pensar em distopia, no sentido etimológico do termo, é de fato caracterizar todo o volume e encontrar um meio refratário de usar a ficção para protestar contra o estado de opressão, de censura e de vilania, não apenas transportando a realidade para um plano alegórico, mas explicitando o que esta se tornou. Em “Voz do povo”, Ribeiro escreve sobre um presidente militar, que manipula o eleitorado com a argumentos autoritários, eliminando opositores e prendendo arbitrariamente o ex-presidente cuja morte é posta em votação num plebiscito popular. O horror de imergir no plano surreal é perceber que o fundo não passa de um aço que reflete o vivido. O Brasil de agora, como aquele que resistiu Cruz e Sousa, segue sendo um pesadelo.

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Livro: Como usar um pesadelo

Editora: Caos & Letras

Avaliação: Bom

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