Estreia pela cifra feminina

Com Terra nos cabelos, o gaúcho Tônio Caetano entra para o seleto grupo de autores que exploram o mecanismo de escrita por meio de uma cifra feminina.

O livro de estreia, que venceu o Prêmio Sesc de Literatura 2020, reúne 15 contos protagonizados por mulheres situadas num universo configurado por valores da intimidade e ecos de diatribes que dão conta de signos vindos de um modelo proscrito de sociedade.

A coletânea tem início com a breve narrativa que lhe empresta nome. “Terra nos cabelos” centra na coragem de uma avó que salva seu neto da brutalidade de marginais, tensionando toda uma voltagem de sentimentalidade nos silêncios que constroem essa relação.

Aqui, ganha relevância dois procedimentos que irão reaparecer, com regularidade, nos textos seguintes. O primeiro é a costura narrativa num plano elíptico que deixa o final (ou o final dos parágrafos) em aberto, de modo a instigar a mente do leitor a completar a história. Ao passo que o segundo diz respeito ao uso de um intenso teor subjetivo, contagiando as frases com nuances dramáticas que retratam os personagens de dentro para fora.

O belo “No jardim” é conduzido pela voz expoente de uma filha que viu, quando criança, a mãe sair de casa e o abandono retumba dentro dela como um gesto que causa, na mesma medida, fascínio e pesar. “Aclamação” vai de alto a baixo no ponto de fervura das sensações, afogueado pela libido de uma mulher revivida por um flerte dentro de um ônibus. Enquanto o primoroso “Formação” (o melhor conto) mostra como o relacionamento entre uma professora e um aluno apático se converte em algo sombrio, galgando escalas de tensão dignas de um thriller, até culminar numa reviravolta digna das crônicas rodriguianas.

Com igual destreza, “A casa no fim da rua” combina exame psicológico, plasma narrativo e estímulo sexual, de forma a contar a primeira experiência de uma mulher casada numa casa de suingue, que acaba se tornando um inesperado encontro de (auto)descoberta fora da casa de suingue.

Caetano imprime, nos textos supracitados, uma intuição criativa e um domínio técnico que não condiz com sua categoria de estreante. Tirando uns pequeninos deslizes aqui e acolá, como evitáveis analogias ruins e algumas descalibragens na busca pelo léxico poético, o autor trabalha o gênero com uma inventividade que faz da leitura algo envolvente, ao mesmo tempo que se arrisca por engenharias que transcendem o modelo clássico.

“Malparadas” se compõe numa chave insólita, cruzando personagens numa noite suja de modo a atribuir ao texto uma sensação de estranhamento. “Identidade”, que versa sobre uma mulher à deriva que acaba entrando num bar, dá partida a um circuito de narrativas que sugerem se completar, numa espécie de episódios salteados. A proposta é interessante, porém com enredos não tão inspirados quanto os demais, esses contos intermediários acusam uma sensível queda de qualidade.

O fôlego se retoma no final, com “Acho que era novembro de 1983”, uma sagaz montagem de iconografias de uma década que serve de pano de fundo para uma história de formação, e com “Estômago”, relato climático sobre uma família obrigada a tomar medidas radicais para sobreviver num mundo abatido por um inverno perpétuo.

Ainda que tenha uma temática descentralizada de todo o conjunto, a abordagem segue o mesmo propósito de registrar a reação humana ante um abalo, de dar voz a personagens que vivem na mesma proporção que reagem internamente às experiências do vivido. Com isso, Caetano não apenas se utiliza do timbre feminino como meio, mas afasta qualquer patrulha acerca do lugar de fala através da qualidade de suas breves formas ficcionais.

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Livro: Terra nos cabelos

Editora: Record

Avaliação: Bom

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