Meios de sumir mulheres

No dia 11 de fevereiro de 1963, a escritora Sylvia Plath tomou uma sobredose de narcóticos e enfiou a cabeça num forno a gás, enquanto seus dois filhos dormiam no quarto ao lado. Horas antes, ela havia selado a porta, de modo que o vazamento não chegasse às crianças, e ainda deixou pão e leite, para quando acordassem.

Selado ao público também ficou, por muitos anos, a vida íntima de Plath com o poeta Ted Hughes, de quem a autora se separou meses antes de se suicidar. Somente com a publicação de Ariel, em 1982, certas suspeitas vieram a lume. Extraída dos diários deixados por Plath, a antologia poética traz uma introdução escrita por Hughes, que alega conter, naqueles textos exumados, a “verdadeira identidade de uma mulher que antes parecia muda”, e que existiam outros volumes que simplesmente desapareceram ou que ele havia destruído “porque não queria que os filhos dela fossem obrigados a lê-los”.

A atitude reforçou a desconfiança de que Plath vivia um relacionamento abusivo, que só viria a se provar recentemente através de um acervo de cartas, que estava em posse de uma médica, as quais trazem o relato de uma agressão física, dias antes de a autora sofrer um aborto, e a declaração de que Hughes a queria morta. No livro A mulher calada, uma investigação acerca de biografias e de documentos que se debruçaram sobre o casamento de Plath e Hughes, a jornalista estadunidense Janet Malcolm aborda uma série de entrevistas que fez com Jacqueline Rose, autora do estudo literário O assédio a Sylvia Plath. A obra, editada bem antes de vir a público as novas cartas, partia do ato de censura dos diários de Plath para indicar a presença destrutiva de Hughes. Em dado momento, perguntada sobre o uso de termos evasivos em seu texto, Rose declara que foi um conselho de seu advogado de modo a evitar ser processada pelo poeta.

Eu não deduzo que, em momento algum, alguma violência tenha ocorrido entre eles. Fazê-lo teria sido legalmente difamatório e o livro poderia não ter sido publicado. O mais importante, de todo modo, é que eu jamais quis fazer essa sugestão, pois me parece que não tenho como sabê-lo e estou convencida de que a literatura é um campo para explorar tanto o que de fato ocorreu quanto o que não nos aconteceu mas — digamos — tememos ou desejamos, diz.

Radicada em Londres, a mineira Nara Vidal vem caracterizando sua literatura exatamente por explorar esse campo interdependente entre fato e ficção, de modo a extrair matéria para construir enredos e personagens filiados ao universo feminino. Sorte, romance vencedor do Prêmio Oceanos 2019, utiliza do fundo histórico da imigração nos anos 1800 para tratar do ciclo de violência contra a mulher, que ressoa nos casos atuais de feminicídio. Anterior a este, A loucura dos outros reúne 21 contos intitulados com nomes próprios, retratando experiências do vivido de mulheres assaltadas por fraturas morais, sociais e psicológicas. Os textos são precedidos por um incandescente poema de Plath, cujos versos, mais que divisar a temática ou situar o procedimento estilístico, fornecem o senso e a força que irão pontuar todo o volume.

Agora, este robusto e representativo projeto literário ganha uma nova extensão com o lançamento de Mapas para desaparecer, reunião de narrativas breves que se interligam pela forma com que os conflitos internos das personagens se desgarram de uma realidade muito presente para conduzir tramas assombradas por um elemento dramático: o apagamento. Em 12 textos, ora narrados em primeira, ora em terceira pessoa, mulheres desaparecem fisicamente, fazem ou fazem-se sumir, são anuladas em estados sociais e em circunstâncias de natureza emocional, na maioria das vezes suprimidas por modelos da toxidez masculina, em diferentes aspectos de pessoalidade.

O livro se inicia com o excelente “Castanheira”, sobre uma mãe que revive o desaparecimento da filha de nove anos, enquanto prepara a festa de aniversário de outra filha, que completa agora a mesma idade. Num procedimento de escrita que transita por inúmeras linhas de pensamento, a personagem reflete sobre o luto insondável da ausência ao mesmo tempo que descreve a própria anulação, encerrada num casamento que respira apenas para manter um mínimo de estrutura familiar.

Aqui, fica evidente algumas características técnicas que irão nortear a maneira com a qual Nara engendra e valoriza seus contos. Frases geralmente curtas, com preferência pela coordenação; forte incursão mental, sem nunca esbarrar no melodrama; retratos complexos de suas personagens, pressentidos de forma clara; e um vocabulário fácil, embora elegante, com palavras escolhidas a dedo. Outro ponto que chama atenção é a articulação dos fios narrativos, natural da efabulação romanesca, onde alguns contextos e transições temporais são correlacionados, mas sem nunca perder a meada ou atrapalhar o entendimento da leitura.

“A morte do caixeiro viajante”, conto que vem em seguida, é um exemplo nato desse método. Uma mulher que deixou uma sessão de teatro e deambula pela madrugada londrina começa a ser assediada por um voz anônima ao telefone, perpetrando um artifício obscuro onde um (concreto ou conotativo) ato perverso se impõe sobre a fleuma de um casamento apagado. “Cipó mil-homens”, por outro lado, não abstrai sua intenção narrativa, versando, com fervura sanguínea, sobre uma menina que teve a prostituição como único meio de sobrevivência e, tempos mais tarde, transforma a corrupção do seu corpo em instrumento de desaparições.

Nara enreda o leitor no contato com situações onde a virulência masculina impregna toda sociedade, independente da estatura econômica, intelectual e representativa. “Carmen” sonda a rotina de uma empregada que anulou a vida em prol das demandas dos patrões, encontrando num ato moralmente reprovável uma chama de gozo. Numa esfera completamente distinta está a esposa do narrador de “O casamento de Letícia”, uma mulher de classe alta que esconde suas reprovações acerca das amizades do filho em máscaras de comportamento que suportam o preconceito de diferentes gêneros.

Tais contradições e manchas na condição humana são utilizadas pela autora, outras vezes, para alcançar subtextos que coadunam com sua temática, mas que também produzem todo um efeito corrosivo de comentário crítico. “Luciana Espírito Santo” e “Lucien Roland” parecem narrativas irmãs. A primeira fala de uma aspirante a escritora que faz de tudo para ter reconhecimento na combinação infesta entre meio literário e redes sociais, entrando numa espiral de autoenganos e abusos, ao passo que a segunda, com musculatura para ter se tornado uma novela, é uma contundente e verossimilhante visão de como os compadrios, o sistema de vasos comunicantes e influências, o toma-lá-dá-cá, as pressões de grupos, criam certas unanimidades na literatura, anulando talentos de maneira sórdida, em prol de uma imagem de sucesso que não passa da venda de ilusão.

Há um debate de longa data sobre a obrigação da arte como função social, que, nos livros de Nara Vidal, parece inerente ao seu conteúdo. Não uma escrita dura, de notação panfletária, mas um fazer literário que, embora num tom mais delicado, mais cadente em sua linguagem, manifesta toda aversão a comportamentos destrutivos de violência, de submissão, de cancelamento da mulher. Afinal, não é que a literatura tenha de transcender seu valor artístico e se impregnar de ferramentas políticas, contudo, composta com qualidade e absorvida com atenção, pode ser uma saída para que casos como o de Sylvia Plath não terminem de forma trágica, enquanto se passa anos suprimindo a verdadeira identidade, sofrendo de forma calada.

 

 

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Livro: Mapas para desaparecer

Editora: Faria e Silva

Avaliação: Muito bom

 

 

*Texto originalmente publicado no Caderno Pensar, do Estado de Minas, em 11 de dezembro de 2020

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