Ode ao Recife dos anos 20

Em sua biografia Kafka, Gérard-Georges Lemaire intitula o capítulo sobre o funeral do escritor austro-húngaro de “O funeral de um mundo”. Naturalmente que o autor francês faz referência à estatura imaginativa da obra kafkaniana, mas a História mostra que, na frase, há também uma extensão geográfica. Segundo relato de Lemaire, Kafka morreu no dia 3 de junho de 1924, em decorrência da tuberculose, no sanatório de Kierling, em Viena. A partir daí, seu corpo foi repatriado, num caixão selado, para Praga, onde, somente no dia 11 de junho, ocorreu o sepultamento. Ou seja, uma lacuna de nove dias que nenhum registro esclarece o motivo.

Devido ao silêncio dos fatos, o jornalista e crítico literário Maurício Melo Júnior ilumina a resposta com a ficção. Não me empurre para os perdidos imagina um Kafka desencarnado que deambula entre os vivos enquanto o périplo de seus restos não chega ao fim no cemitério judeu de Stanice. Mas, aqui, valendo-se do surrealismo próprio da maioria das narrativas kafkanianas, o escritor circula pela efervescente Recife do início do século XX.

Como foi parar lá e como fala português também faz parte dessa alienação da realidade, como descreveu o escritor Modesto Carone. De fato, no romance, o protagonista atende pela sigla F., um estrangeiro, judeu, que sobrevive de traduções do alemão. Mas, caso tais referências ainda não pareçam claras, logo em suas primeiras frases, o personagem menciona o sanatório e Dora, numa citação direta a Dora Diamant, última amante de Kafka, que ficou detentora de parte de seus escritos não publicados.

Além disso, o livro flerta a todo instante com o expediente da intertextualidade, evocando e incorporando elementos e/ou espectros de obras do autor de O processo, a exemplo deste romance (a burocracia renitente) e, sobretudo, Carta ao pai, o fantasma da indiferença paterna a assombrar os pensamentos e as memórias.

Duelando, portanto, com os próprios demônios, F. transita pela cidade, ainda embalada pelo sistema escravocrata e pela cultura da cana-de-açúcar, como uma espécie de flâneur que observa e reflete sobre a urbe em expansões subsequentes à arquitetura, à culinária, à religião, à idiossincrasia e às contradições de um povaréu de modos e tradições arcaicas e um grupo de intelectuais que praticam uma visão de sociedade moderna.

Em encontros circunstanciais num café, o protagonista convive com pensadores e escritores, tais como José Lins do Rego e Gilberto Freyre, absorvendo (e tentando decodificar) as novas interpretações e ideias sobre a formação social e cultural do Brasil, em contrapartida aos contrastes públicos que lhe tomam de assalto.

Longe dessa relação com o cotidiano da cidade, o personagem lida com um embate existencial acerca do pendor da escrita. Assim como ocorreu com Kafka, que só foi ser reconhecido depois de morto, F. se questiona, a todo momento, sobre a fidelidade ao fazer literário. Sei, escrevo cônscio da inutilidade deste exercício, rumina.

Ainda assim, num recurso de metaliteratura do enredo, escreve fragmentos de uma novela sobre dois soldados numa guerra, que, na possibilidade do tempo dobrável da ficção, serão/foram enviados para alguém numa terra distante, que lida com o sepultamento de um amigo, moldando a trama numa contravolta autorreferencial.

Em seu segundo romance, Maurício Melo Júnior entrega seu livro mais bem acabado. Com uma escrita elegante, de frases bem lapidadas, o autor articula as vozes que habitam o espaço paginado, realizando um trabalho impecável de conversão da matéria biográfica em matéria ficcional. A transfusão da pesquisa recria a época com minudência e atmosfera, enquanto o protagonista se mimetiza ao mesmo tempo que se desquita de sua inspiração, por conta da dosagem certeira de atração psicológica.

É o tipo de história que é um deleite para o leitor que dispõe de suas referências, mas que também funciona, com grandeza, sem a sua sombra.

Pois, no fim das contas, mais que um livro de um autor maduro, é um livro de um dos principais leitores do Brasil. A vida do criador de Gregor Samsa é apenas uma ponte para acessar um painel literário que alimenta um jogo narrativo no qual o texto cita, sugere, absorve e transforma uma sorte de obras e escritores. A certa altura, o narrador descreve estar de posse do livro da baleia de Melville, enquanto olha a paisagem de desenho pobre, abrindo (intencionalmente ou não) uma passagem para fora de seu conteúdo numa alusão a outra baleia, uma bem menor, que também viveu um périplo, cruzando uma paisagem miserável de vidas secas.

Não me empurre para os perdidos é, de fato, uma ode ao tempo de uma cidade, uma ode à intemporalidade da literatura.

***

Livro: Não me empurre para os perdidos

Editora: Cepe

Avaliação: Muito bom

2 comentários sobre “Ode ao Recife dos anos 20

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