Fuga para o mesmo lugar

Suíte Tóquio, da curitibana Giovana Madalosso, constrói-se na alternância de duas partes que se comunicam através de um elemento em comum: uma criança raptada.

A primeira delas é conduzida por Maju, uma mulher de atitudes e falas simplórias, saída do Paraná, há trinta anos, para trabalhar como babá em São Paulo. No momento, ocupa um quartinho no apartamento de classe média alta de Fernanda e Cacá, onde cuida de Cora. Até que, numa manhã, ao invés de deixar o prédio no sentido da praça, decide sequestrar a menina. Vão até a rodoviária e embarcam rumo a Presidente Prudente, município do interior paulista.

A outra parte tem a voz reinante de Fernanda, mãe de Cora. Contratada por uma emissora de televisão, com extensões internacionais, ela vive o sucesso profissional, enquanto seu casamento com um deitão de meia-idade, que passa o dia fumando maconha, fracassa. Durante um projeto, conhece Yara, uma produtora com quem engrena um caso tórrido. A filha, em meio a essa roda viva, é um acessório cuja manutenção é delegada a outrem. Tanto que só se dá conta de seu desaparecimento horas depois.

Madalosso aplica, a seu enredo, movimentos de espelhamento. Com a maquinação de avanços e recuos temporais, a autora executa reiteradas trocas de posições através da comparação entre babá e mãe, mostrando que, se no passado uma era atenciosa e outra, displicente, agora, por conta das circunstâncias, as características são revezadas. Se uma pensava no bem-estar da criança e outra, em si mesma, o curso dos fatos leva à inversão de tais comportamentos.

É óbvio que há aí um comentário social. Mulheres ricas que negligenciam seus filhos, entregando-os ao zelo de mulheres humildes, pagas e acolhidas para serem subservientes. Fernanda apelida de “exército branco”, a legião de empregadas que ocupa as praças, cuidando dos filhos dos patrões. Em outro momento, comenta que deixou o quartinho de Maju mais claro, descolado, parecido com a suíte de um hotel japonês, para “se sentir menos escravocrata”.

Por outro lado, o texto é maniqueísta ao apresentar a linha desastrosa de relacionamentos da babá e observar/sugerir que mulheres com pouca instrução estão presas aos enganos masculinos, ao passo que as mulheres inteligentes são livres de qualquer obstáculo que um homem possa colocar, inclusive para encontrar o amor em outra mulher. Sim, possivelmente, vistas de forma individual, as afirmações estão corretas, porém, ao compará-las, cria-se uma verdade destituída de certidão.

Outro problema diz respeito ao tom, que nunca se acerta. Há aparições de humor (o capítulo no quarto de motel é hilário), tragicomédia, erotismo, drama e reflexões críticas. Mas ficam sempre no “quase”, em anúncios, nunca estabelecendo uma coesão entre si, entre suas matizes atmosféricas.

A culpa é da frouxidão ou, melhor, da planificação, da estrutura. Madalosso é uma autora madura, que sabe construir e dar identidade a seus personagens, contudo sua escrita se desenvolve em piloto automático, sem pontos de tensão, contravoltas; um fluxo que se espraia, sem represa, caindo em repetições e em caminhos que se distraem do ponto central. Embora seja um romance prazeroso de se ler, ao fim fica a sensação de que simplesmente se andou em círculo.

Num livro sobre rapto, notadamente alguns componentes narrativos foram raptados.

***

Livro: Suíte Tóquio

Editora: Todavia

Avaliação: Regular

Um comentário sobre “Fuga para o mesmo lugar

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s