O sentido lábil do amor

Não é muito comum, mas, em alguns casos, uma informação externa tem muito a dizer sobre o conteúdo de um livro.

Em Laura é um nome falso para alguém que eu amei de verdade, a segunda orelha faz saber que o autor Daniel Belmonte é roteirista de origem, e isso explica as decisões narrativas e o modelo estrutural adotados nesse randômico romance de estreia.

O enredo se flexiona ora em primeira pessoa, ora em terceira; também recorrendo a arranjos e combinações de listas (músicas, filmes, escritores etc), poemas e diálogos com rubricas dramatúrgicas. Misturam-se a isso breves relatos e fluxos mentais, dando conta de um circuito movido por dois atores, mas com a perspectiva de apenas um deles.

No caso, Daniel (talvez, alter ego do autor), um jovem adulto que transita pela boêmia e pela cena cultural carioca, de bares a cinemas de rua. Numa dessas rondas casuais, conhece Laura e engatam uma amizade (por conta da semelhança de gostos), que evolui para uma amizade colorida e (por parte de Daniel) para um amor renitente.

Papeiam, transam, veem filmes, vão a blocos de carnaval, passam uma temporada em São Paulo, vivem um relacionamento sem estacas. Por conta disso, tudo se desenrola numa linha guia de impermanências, sobretudo para o protagonista que não consegue controlar suas crises de ansiedade, nem colocar pontos finais.

Belmonte acerta na armação dessa história de amor, no que tange a liga entre construção de ambiente e desempenho psicológico dos atores principais. Partindo do pressuposto de que o texto advém de um fundo ficcional, é muito crível a maneira que os personagens interagem e se comportam nesse cenário urbano de encontros e desencontros.

Bastam poucas páginas para o leitor se ver engajado no desenrolar dos fatos, pois o argumento é executado a partir de uma chave de identificação (possivelmente) unânime. Quem nunca viveu uma paixão? Quem nunca fez listas de músicas que marcaram um tempo a dois? Quem nunca passou pelos conflitos internos da desilusão?

Contudo, é exatamente esse vetor de reconhecimento que torna o drama genérico e derivado da praxe de autores como Domingos de Oliveira e Marcelo Rubens Paiva. É o cara que conhece a garota, apaixona-se, passa por altos e baixos, idas e vindas, e o curso errático das coisas vai alimentando um sentido lábil do que é uma história de amor.

Dizem que todas as histórias, no fundo, são histórias de amor. Belmonte escreveu a dele, lançando mão de uma colagem de fragmentos textuais que jogam com os gêneros e os formatos, de modo a intrincar os espaços entre biografia e ficção, ainda que, de fato, isso tenha mais importância para o próprio autor.

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Livro: Laura é um nome falso para alguém que eu amei de verdade

Editora: Patuá

Avaliação: Regular

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