Uma mulher apaixonada

Autor de celebrados livros de contos e de crônicas, o cearense Marco Severo aplica a mecânica das formas breves na construção de sua primeira novela. Logo nas primeiras linhas de Um dos nomes inventados para o amor, o leitor é apresentado aos personagens principais e suas motivações, ao conflito central e sua seta de desenvolvimento.

Não há desvios ou volteios. Qualquer tipo de deambulação. A trama é reta, com frases compassadas e ágeis, articulando fato a fato num ritmo que se mantém uniforme, mesmo com a estrutura armada em in medias res, ou seja, começando pelo meio da história.

O enredo é daqueles que quando menos se contar, melhor.

A protagonista é Cacilda, uma mulher de meia idade que se autodenomina “alguém que nasceu para ser apaixonada”. Casada com o empresário Josualdo, goza de uma vida de luxo, que leva com esbanjamentos e viagens internacionais. Então o marido compra um sítio no interior de São Paulo, sem o seu conhecimento, e propõe que abandonem tudo e “morem no meio do mato”. Cacilda, obviamente, detesta a ideia e, quando Josualdo fica uns dias fora a negócios, faz uma visita escondida ao local, onde se depara com um poço artesiano no fundo da casa e é tomada pela tentação de um plano inusitado, que ali mesmo começa a pôr em prática.

Estabelecida esta premissa, Severo a desconstrói em seguida, assim como a moldura da personagem. Com comentários escrotos sobre a pobreza e pinta de socialite a princípio, Cacilda toma uma atitude que surpreende e soa descabida, mas que faz todo sentido quando a trama se descola da introdução e recua até um ponto distante do passado da protagonista, remontando sua trajetória de vida até outra vez se encaixar nessa primeira parte.

É um exercício desidratado de escultura de personagem, valendo-se das decisões e ecos dessas resoluções para lhe atribuir dimensão psicológica e qualidade existencial. O autor não completa alguns contornos de modo proposital, deixando para o leitor resolver se condena ou não o que está presenciando.

Narrativamente, isso não fácil de se instituir, quando não há arco paralelo ou evidente antagonista. Severo demonstra técnica e perspicácia ao usar os golpes da vida como vilão e uma condição emocional da mulher que ama demais como justificativa. Ou será que tudo não passa de cortina de fumaça?

Dando corpo e manipulando essa ambiguidade, o enredo seduz com doses de humor e de tensão, e faz relevar até algumas passagens menos criativas, tornando a leitura empolgante a ponto de se atravessar todo o livro num fôlego só.

A exemplo de autores como Luiz Vilela e Sérgio Sant’Anna, dos quais a novela parece se inspirar em alguns aspectos de estilo, Marco Severo entra para o grupo de escritores que acertaram a mão ao trocar um gênero pelo outro.

***

Livro: Um dos nomes inventados para o amor

Editora: Moinhos

Avaliação: Bom

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s