Macacos leem Nietzsche

Não é fácil encontrar humor em bestiários. Tudo depende – relativamente – da ideia de diversão. Quem pode dizer que não há algo de cômico em um sujeito vomitar coelhinhos, igual faz o personagem do conto “Carta a uma senhorita em Paris”, de Cortázar? Ou alguém temer ser ruído por uma falange de traças, feito no conto de di Benedetto?

Sim, não há como negar o tanto de burlesco que há na maneira com que Borges descreve o bicho metade gatinho, metade cordeiro (e seu leniente fim, sobretudo) em O livro dos seres imaginários. E como é divertida a forma que Arreola ilustra o avestruz, o sapo, o bisão. Assim como a lagartixa-satânica-cauda-de-folha, o humor está no mimetismo dos tons e dos sobretons. Decorre da calibragem do olhar.

De modo que não seria exagerado (ou limitado, talvez?) afirmar que Testado em animais, do gaúcho radicado em Manaus que é redator em São Paulo Rafael Zoehler, é um livro de contos divertidos. Mas não um divertido de gargalhar até a cabeça cair para trás, e sim uma graduação polarizada de comicidade que vai da ruga no canto de boca até o esgar tragicômico relacionado ao nonsense, ao cartunesco, ao limite entre a pândega e o absurdo.

Sendo assim, muitos textos podem passar como que filiados à corrente do fantástico, quando de fato tratam-se de relatos compostos por um realismo esgarçado repleto de distopia humana, desmoronamentos e costumes. Em alguns casos, venta Dez de dezembro, de George Saunders. Em alguns casos, pode soar como indo longe demais.

Para a patrulha do politicamente correto, por exemplo, o conto “Incurável” é uma ceia. A estrutura é bem simples: dentro do carro, mãe e filha conversam sobre a morte, depois de a menina descobrir que a avó tem diabetes. A dinâmica, então, segue nesse vaivém frugal de falas, até o final, digamos, cornellàniano.

Outro que desafia o (tal) gosto moral (damaresiano) é o excepcional “Mãe burra”, sobre um prostituta de meia-idade que, durante sessões contínuas de sodomia e dp, fica com um envelope ao lado do rosto, namorando fotos do filho e travando uma luta com fantasmas do passado acerca do caráter materno.

Zoehler avança por essa zona pantanosa, perscruta por valas sociais e anímicas, pressiona alguns nervos, porém o faz de um jeito tão destituído de carga, tão descompromissado, tão despreocupado com a ideia de ser o-novo-grande-autor-brasileiro, que essa distensão da escrita permite seus textos serem naturalmente criativos, de executarem as associações (narrativas, temáticas, estilísticas etc) mais anormais e funcionarem, de serem uma literatura instigante, agradável e divertida.

Há aí também a metódica do redator publicitário, da frase enxuta, bem marcada, e de uma estética de enredo predestinada ao visual. Tal aspecto, quando se incorpora na estrutura, dá conta de algumas experimentações, a exemplo de “Ninguém transa por aqui”, que traz um trecho inicial onde um casal, baseado num centro de pesquisa no Polo Sul, trava uma discussão sobre a reprodução das bactérias e (quem sabe) dos humanos, depois apresenta cinco possíveis cenários para o leitor compor a conclusão.

Já o ótimo “Não existem mais telhados em Pyongyang” ocorre em duas linhas narrativas que, embora se localizem em tempos distintos, complementam-se à medida que os personagens vão semeando novas informações em seus diálogos. Aqui, um pai e um pequeno filho, sobreviventes numa Coreia do Norte pós-apocalíptica, compartilhando conhecimentos sobre signos do (Mc)Capitalismo como que compartilhassem ensinamentos de Confúcio.

Quando os animais ganham protagonismo, os relatos se destacam em aspectos emblemáticos. No hilário “O Schrödinger de Schrödinger” (para quem assistiu a terceira temporada da série Dark, sim, é aquele experimento do gato na caixa), um felino, armado com uma pistola, sai em busca de vingança. “A raiva do cão” é a formação de um puzzle com peças completamente aleatórias – um homem com Alzheimer, um farol e um cachorro que joga damas com um velho -, que resulta num quadro final estranho, coeso e incrível. “Gomenasai, Hideki” versa sobre uma moça que tatua uma carpa na batata da perna para impressionar os pais do namorado, e coisas surreais acontecem.

Mesmo quando muda de chave, investindo em textos norteados pelo comentário social, a ausência de uma chama original é compensada pela criatividade no exercício de reconfiguração temática. É o caso de “Esofromatema”, que parte da famigerada primeira frase de A metamorfose, de Kafka, de modo a promover a subversão da máxima do homem virando inseto para a do inseto se transformando num menino de rua, resgatado do esgoto e adotado por um casal de classe média.

Lembra do nariz de cera lá em cima sobre o humor? Zoehler imprime, nas últimas frases desse conto, seu ponto de vista, enquanto, em outros, deixa em aberto para o leitor julgar. Mas, independente da opinião, não há dúvida de que Testado em animais é um dos melhores livros de conto de 2020. E se é divertido para um bestiário? Depende. Quem pode dizer que não há algo de cômico em uma ema bicar a mão de um genocida?

 

 

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Livro: Testado em animais

Editora: Patuá

Avaliação: Muito bom

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