Uma quase memória

A memória é o moinho que dá forma a Entre nós, de Paula Macedo Weiss, livro que combina álbum de família com registro histórico.

Percorrendo cerca de duas décadas, a autora paranaense radicada na Alemanha remonta passagens de sua vida e fatos coletivos de escalas nacional e regional, desde seu nascimento, em 1969, até o início de sua vida adulta, no fim dos anos 1980.

Não se trata, porém, de uma autobiografia, e sim, como define a autora, de “um livro de memórias fictícias”, formado por “lembranças de um tempo distante, subjetivas e carregadas de bagagens emocionais e de ingenuidade de criança”. Uma espécie de quase memória – e, aqui, o romance de Carlos Heitor Cony é uma referência ativa.

Weiss também tem, a certo modo, o pai como compasso, relatando a maneira com que as ambições políticas de seu progenitor traçaram o caminho da autora, de sua mãe e de seus dois irmãos mais novos. Nascida no auge da ditadura militar brasileira, desde criança aprendeu a ser oposição, pois o pai, eleito deputado federal nos anos 1970, sempre militou e atuou segundo o expediente contrário aos atos do regime censor, assassino. E também por isso, pagou certos preços – muitos pagaram.

Em primeira pessoa, a narrativa avança tal o fio de um rio entre blocos de pedra, no qual a História aparece em trechos duros, quase verbetes enciclopédicos, vinculados a citações e notas de rodapé. Se por um lado a escolha atrapalha a organicidade da trama, o andamento compensa pela habilidade cativante com que a escrita seduz o leitor para dentro desse universo engendrado pelo olhar infantil, da menina que descobre o mundo e retrata seu círculo familiar.

O enredo, então, estabelece-se na articulação dessas frentes íntimas e mundanas, preenchendo os vãos do tempo com a imaginação num jogo de sentidos e destinos, onde as transformações da política nacional é usada como pano de fundo para a carreira política do pai, a origem da cidade de Londrina para mapear a árvore genealógica, a redemocratização do Brasil para significar a puberdade, a epidemia da aids para dimensionar a morte intratável de uma pessoa querida.

Tudo ocorre nessa condução ora expansiva, ora introspectiva, pouco a pouco se refinando numa história confessional que encontra seus melhores momentos em episódios domésticos, em acontecimentos de baixa frequência que dão conta de alegrias e tristezas, descobertas e perdas, conquistas e tragédias; a contextura da vida privada.

Weiss se coloca na posição de agente e testemunha de seu tempo, investigando a si e a sua linhagem, numa forma afetiva de acessar o passado, mas também de confrontá-lo por um motivo que ganha um outro (ou o mesmo) significado nas últimas páginas. Um epílogo que se desgarra da narrativa memorialista e se converte em manifesto, em protesto, em indagação. Como pudemos chegar novamente a um regime de extrema-direita, além do mais por vias democráticas?, revolta-se.

Filha de um obstinado combatente da ditadura, a autora; filhos de uma geração de torturados, mortos e desaparecidos, todos nós, a resposta não encaixa, agride, é inviável para qualquer tentativa de argumento no oráculo da História, mesmo em pensamentos delirantes, mesmo em memórias fictícias. A eleição do atual presidente é um anacronismo do rumo dos fatos, talvez um prova de que, ao longo do tempo, a humanidade não tece uma linha do vivido, e sim um abismo de esquecimento.

 

 

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Livro: Entre nós

Editora: Folhas de Relva

Avaliação: Bom

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