À procura do romance

Em quase duas décadas de existência, o Prêmio Sesc de Literatura se caracterizou por não se regular pelo convencional na escolha de seus romances. Na maioria dos casos, a categoria serve mais como carimbo de capa, visto as transgressões e os diálogos com outros gêneros que essas obras promovem tanto na estrutura quanto no conteúdo.

O legado de nossa miséria, de Felipe Holloway, enquadra-se perfeitamente neste catálogo. O problema é que o livro do professor cearense radicado em Cuiabá, que venceu a edição 2019, falha na elaboração do formato e, sobretudo, do enredo em originalidade, substância, perícia e articulação dos componentes narrativos.

Confesso que estou exausto dos romances que não são de fato romances, mas a construção ou a procura de um romance. Contexturas carregadas de um ranço ibérico, que não caminham com as próprias pernas, convocando referências para se criar uma mimese entre fato e invenção, entre ficção e ensaio.

A premissa, aqui, é das mais simples e toda a trama se resume a ela: um professor e crítico literário é convidado para participar de um simpósio na fictícia cidadezinha mineira de Amará (que tem esse nome para fundamentar uma piada ruim), onde encontra um escritor que muito admira e, num balcão de bar, ambos emendam uma comprida conversa sobre as verdades e as mentiras da vida, modulando argumentos como que num jogo de tabuleiro.

Apesar de o título tomar emprestado a célebre frase machadiana de Memórias póstumas de Brás Cubas, a base para a armação textual é o conto “A forma da espada”, de Jorge Luis Borges. Tal qual no relato do escritor argentino, Holloway propõe uma reflexão sobre a percepção da realidade, segundo a qual o real que se palmeia (ou melhor, que se expõe) não passa de uma representação e/ou de um pobre simulacro. Os alvos, naturalmente, são os meios acadêmico e literário.

Só há 200 anos Flaubert cantava por essa cartilha, mas, quando bem feito, ainda funciona, a exemplo de O ano em que vivi de literatura, de Paulo Scott. O legado de nossa miséria é atrapalhado pelo descompasso, pela reciclagem de certos gestos de escrita sem que nada traga de autoral, de estimulante.

Minto: em dado momento, o protagonista sai do hotel em busca de satisfação sexual, e o apelo, o comentário social, o contraste que há na cena prendem a atenção.

Porém, é um lampejo em meio a um circuito de irregularidades. A linguagem ora procede de modo informal, ora ganha um rigor, ao ponto de se empolar. As transições entre a trama em curso e os intertextos são bruscas. O autor cede um capítulo inteiro para detalhar minuciosamente a preparação da bagagem do personagem, que mais parece uma forma de engrossar páginas. Os principais agentes da história se alternam em falas prolíficas, para se chegar a um desfecho apressado, meio sem saber para onde ir.

A sensação que fica, ao final, é de que se tratava originalmente de um conto, esticado para caber num romance. Isso não costuma dar certo. Borges defendia não escrever um romance porque não queria perder a tensão que há entre narrador e escrita exclusiva da forma breve. É mesmo importante saber onde colocar a tensão. Caso contrário, acaba virando um torcicolo, como o que acomete o protagonista na primeira frase do romance.

 

 

***

 

 

Livro: O legado de nossa miséria

Editora: Record

Avaliação: Ruim

2 comentários sobre “À procura do romance

  1. “Confesso que estou exausto dos romances que não são de fato romances, mas a construção ou a procura de um romance.” Cansa mesmo.

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