Ficções no campo crítico

Charles Sainte-Beuve, considerado o pai da crítica literária, dizia que o crítico é aquele que sabe ler e ensinar os outros a ler. Em que pese a inclinação pedagógica da frase, o que o literato francês chama de sabedoria refere-se ao fato de que, para o leitor comum, leitura é coleta enquanto, para o crítico, leitura é direção.

“Saber ler” formula-se no movimento de incursionar pela camada subsolar da página, observando os mecanismos de escrita e, sobretudo, compreendendo o que o texto diz de forma elíptica. Para o crítico, aquele a que se refere Sainte-Beuve, a leitura se dá em meio às engrenagens.

Editor de site de literatura e crítico literário, o recifense Ney Anderson importa para sua estreia na ficção essa experiência de atento leitor. Os 33 contos de O espetáculo da ausência dão conta de um autor que foi apurando seu fazer literário a partir de sua visão crítica, suas reflexões sobre a literatura, sua intimidade com os livros.

O efeito na prosa é o controle técnico sobre o curso narrativo, o capricho nas transições, o aparo dos diálogos e a segurança em compor a tessitura sobre uma segunda trama suprimida até as últimas linhas, quando irrompe numa contravolta, num revés de surpresa para o leitor.

É o que ocorre nos textos que abrem a antologia, “Máscara rasgada”, sobre um noctâmbulo que vaga pelas ruas à caça de prazer, e “Nana neném”, um drama soturno no qual uma mãe cuida de sua bebê. Ambos se encerram com a subversão do entendimento prévio.

Os contos seguintes administram a tensão em formatos que experimentam possibilidades de engenharia, explorando dimensões psicológicas e/ou enredando personagens em situações-limite, a exemplo de “Neon horizontal”, uma trama desarticulada em que um pai ciente de sua morte descobre uma maneira de se despedir de sua filha.

“Teoria do crime”, que vem na sequência, flerta com o gênero detetivesco, de modo a introduzir o leitor numa dinâmica executada através da intralinguagem. A ficção se articula a um eixo central impulsionado pela própria literatura. Na escolha de uma temática imperativa, a coletânea de um crítico literário se revela uma ode à escrita.

A literatura é a grande inspiração e a deusa protetora. Personagens são escritores ou buscam na literatura uma forma de anestesiar suas angústias ou canalizar suas obsessões. Alguns contos se caracterizam por um fator diegético, no qual a realidade ficcional é invadida por ecos da ficção produzida pelos atores da trama.

Em “A última página”, duas vozes se alternam acerca do encontro com a finitude, estabelecendo um paralelo com o ponto final que se coloca num livro escrito por uma delas. O que importa agora é que tudo terminou bem, ao menos na ficção, desoprime aquela para qual a vida continua.

“Por onde caminha o rascunho” ocorre sobre uma linha tênue entre o conto e o estudo, reatroalimentando a ficção com observações técnicas sobre o fazer literário. Assim como na vida, a ficção também precisa resguardar os seus segredos, sentencia o narrador. “O espetáculo da ausência”, texto que batiza o livro, alfineta o meio literário, instigando uma relação de semelhança entre o velório de um escritor com as feiras literárias, onde circulam pessoas que criam personagens agindo feito personagens.

Toda essa pluralidade estilística e estética se concentra, porém, sobre um singular pano de fundo: a cidade de Recife, urbana, às vezes furiosa, às vezes melancólica, a exemplo do que retrata o derradeiro conto “Já não sou o único que encontrou a paz”, cujo enredo sintetiza bem a tônica do volume: sentimentos expressos, laços familiares e literatura.

Num ano maldito, em que perdemos dois dos nossos principais contistas, Ney Anderson dá seus primeiros passos no território das formas breves, ao mesmo tempo que reverencia àqueles que ali ergueram seus totens. Nomes como do soberano Sérgio Sant’Anna, que empresta uma frase para a epígrafe: O compromisso do artista é com a arte. Que a arte, enfim, nos ensine a ter senso crítico sobre a vida!

 

 

***

 

 

Livro: O espetáculo da ausência

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

Um comentário sobre “Ficções no campo crítico

  1. Que interessante: “Editor de site de literatura e crítico literário, o recifense Ney Anderson importa para sua estreia na ficção essa experiência de atento leitor. Os 33 contos de O espetáculo da ausência dão conta de um autor que foi apurando seu fazer literário a partir de sua visão crítica, suas reflexões sobre a literatura, sua intimidade com os livros.”

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