Um grine entre orixás

Alarmado com o avanço do exército de Hitler pela Europa, o professor Saul Sztajn, da Universidade livre da Polônia, envia sua filha Anna Lea para morar com o amigo Mendel Litvak e sua esposa Judith, na Holanda. A jovem se abriga na casa por dois anos até que, com a ocupação nazista dos Países Baixos, busca outra alternativa de fuga, desta vez com a ajuda de Jos, filho do casal Litvak, que arquiteta para ela uma viagem sem volta para o Brasil.

Anna tomaria o trem até Paris, depois um vapor até a Itália, em seguida embarcaria num navio argentino com parada no porto de Santos, onde seria recepcionada por seu futuro marido. Todo o esquema seria monitorado por atravessadores, e são esses homens clandestinos que a estupram durante a travessia do Atlântico.

No Brasil, Anna não encontra um casamento seguro, mas a sobrevivência através da prostituição. Inteligente, sobretudo pelo que extrai de conhecimento dos livros, logo se torna proprietária do bordel e passa a acolher mulheres judias expatriadas no bairro paulista do Bom Retiro em plena formação.

Paralelamente, Jos segue contrabandeando mulheres para o Novo Mundo enquanto participa de uma célula de resistência ao nazismo ao lado de Cornelius, dono de uma embarcação que transita comercialmente entre Holanda e Bélgica, e da astuta Bela. Por conta de sua atuação beligerante, logo Jos começa a ganhar fama de herói entre os habitantes locais, mas, na verdade, não passa de um sujeito inescrupuloso, narcisista, que rouba e engana para enriquecer e/ou salvar a própria pele.

Isso se materializa quando os alemãs fecham o cerco contra os dissidentes e, ao saber de companheiros presos e levados para campos de concentração, Jos dá as costas a todos e escapa para o Brasil, asilando-se no prostíbulo de Anna Lea. Lá, conhece a empregada Preta Lina, sabedora dos ofícios do candomblé, filha de Osum, e o delegado Egídio, uma espécie de cafetão, que suborna policiais e políticos entre troca de concessões para que o bordel siga em funcionamento.

Mestre em artimanhas, Jos não tarda para se estruturar financeiramente e, por meio agora do contrabando de pedras preciosas, dá partida a uma nova saga entre dois continentes, conectando presente e passado num circuito de reencontros e rupturas que darão conta de reviravoltas, visitas a planos astrais e acerto de contas.

Dadas as devidas contenções, este é o argumento primário de O filho de Osum, romance histórico de Decio Zylbersztajn. Em sua estreia na prosa longa, o professor paulista traz uma abordagem inabitual sobre a Segunda Guerra, guiando a experiência dramática pela perspectiva de um antagonista judeu. A complexidade do personagem se afina a um enredo que se conforma por meio de variações narrativas e de transições temporais e espaciais que dimensionam o plano geográfico a partir de ações particulares.

Com isso, o autor consegue algo raro, que é desenvolver um desenho de mundo à medida que a marcha da ficção dita a entrada da história oficial, não precisando dilatar o raio da realidade para que o leitor compreenda o monumento dos fatos e o peso das transformações sociais vividas pelos atores da trama.

É um livro contido em seu conflito central, embora vasto em seu pano de fundo. Tal ambivalência se repercute nos personagens habilidosamente delineados em seus aspectos arquetípicos, embora cheio de camadas. A escrita elegante e fluida percorre uma soma de caminhos, costurando cruzamentos que acionam chaves para subgêneros dentro do gênero maior do relato de refugiados da guerra. Há chance para o suspense, o romance, o registro histórico, a aventura selvagem pelo Brasil germinal.

Contudo é em sua marca subjetiva que Zylbersztajn triunfa. No expediente de paralelos e de fusões, envolvendo de aspectos materiais à representações simbólicas. A ruína da Europa enquanto o Brasil era uma terra em plena concepção, com cidades nascendo, incorporando à sua raiz o valor identitário dos novos imigrantes. O passado recente de perseguição do povo judeu associado ao passado de escravidão sofrido pelos negros africanos. A aproximação até então impensável entre o nazismo e o universo dos orixás.

Outro ponto interessante é como o autor modela seu antagonista a partir da analogia entre o espelho de Osum, um objeto simbólico da divindade, e o mito de Narciso, aquele que se encantou pelo próprio reflexo. A personagem Preta Lina, neste caso, funciona tanto como condutora entre o mundo físico e o espiritual quanto um tipo de bússola moral, obviamente rechaçada por Jos que se movimenta pela vida ludibriando e tirando proveito de mulheres.

Ainda assim, num ambiente tóxico de homens genocidas, de machismo e de misoginia, são as figuras femininas que iluminam a tudo num último recurso de garra e de resistência, provando que, independente da gravidade da guerra, da raça, do credo e da era, a luta pelo direito de voz se sobrevém contra os tempos mais sombrios e seus arquitetos.

 

 

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Livro: O filho de Osum

Editora: Reformatório

Avaliação: Muito bom

3 comentários sobre “Um grine entre orixás

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