As marcas da tortura

Antes de ter acesso ao conteúdo de Memórias de um triste futuro, o leitor se depara com a informação de que a leitura pode se dar de maneira linear ou aos saltos, numa dinâmica em que os capítulos seguem uma orientação cronológica.

Isso porque o carioca William Soares dos Santos arma sua estreia no romance por meio de fragmentos movediços que habitam um mesmo contexto histórico-social: o sistema repressivo instituído pelo governo militar no Brasil entre os anos de 1964 e 1985.

São relatos guiados por uma dicção predominante, que se intercalam num circuito próprio da narrativa coral. Lidos em sequência, a última frase de um texto é sempre aquela que inicia aquele que vem depois. Com esse efeito, o autor dá um senso de unidade ao livro, que poderia passar muito bem como uma antologia de contos.

Explorando além do formato, o conteúdo se plasma a partir de duas frentes: a conversão da matéria biográfica em matéria ficcional, e a criação literária que se espelha na realidade para criar um duplo modelado pela mescla de invenção, registro histórico e episódios particulares.

Com isso, o movimento narrativo passa pela elaboração imaginária, pela memória, pelo documento verdade, pelo ensaio. Alguns personagens são inspirados em arquétipos e procedimentos coletivos, enquanto outros retratam, sob a névoa fina do anonimato, casos verídicos, como os de Vladimir Herzog e de Stuart Angel.

O autor, por outro lado, escancara seu empenho descritivo ao abordar os centros de tortura, a exemplo dos Dops e da Casa da Morte, em Petrópolis. E aqui vale um aviso: esse não é um livro para leitores sensíveis. Mais que reviver a atmosfera dos anos de chumbo, a fidelidade do confronto entre os militantes políticos e a polícia de repressão, o tema central é a tortura, a desumanidade e a vilania do regime que prendia, que seviciava, que matava, que desaparecia.

Neste sentido, a escrita se articula de forma pungente e avassaladora, detalhando as experiências das vítimas que dão conta de espancamentos, privações, estupros de homens, mulheres e crianças, roubos de bebês, extermínios, rebaixamentos morais, sequelas intratáveis na mente e no corpo.

É pesado, mas é o passado como foi, independente de oficial ou clandestino. É necessário, pois abrange um tempo pretérito de modo a mirar na sociedade de hoje, desgovernada por um presidente que, declaradamente tiete de um dos mais cruéis torturadores da ditadura, a todo momento flerta com a ideia da volta de um estado militar.

Há problemas, no entanto, que devem ser mencionados. Alguns erros ortográficos incomodam a leitura, assim como falta, em certos trechos, um azeitamento na introdução da pesquisa no exercício ficcional. Uma passagem, em especial, peca pela incoerência, quando um personagem revela que, depois de um longo período preso, nunca mais soube de uma mulher, contudo finaliza o relato com informações sobre a tal mulher que declara ter conseguido depois de sair da cadeia.

Soares compensa essas falhas com uma escrita de boa fluência e imersiva, arrastando o leitor para os porões da ditadura junto a seus personagens, ao mesmo tempo que demonstra que um regime autoritário vai além das políticas milicianas, refletindo no aumento da miséria, nos crimes de racismo e de homofobia, no feminicídio, no abismo entre homens e mulheres no mercado de trabalho, no acesso ao ensino superior aos mais pobres, e em declarações covardes e atrozes como a frase evacuada pelo atual presidente em relação à busca pelos desaparecidos no tempo do regime militar: Quem gosta de osso é cachorro.

Memórias de um triste futuro grita contra o passado, ecoando no Brasil do presente, uma nação entregue a viúvos e filhotes da ditadura capazes de assassinar milhares de brasileiros, como nas investidas recorrentes de lançar a população à rua em meio a uma pandemia mortal. O genocida de hoje descobriu que não precisa pegar em armas.

 

 

***

 

 

Livro: Memórias de um triste futuro

Editora: Patuá

Avaliação: Muito bom

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s