Atlas da ruína humana

O quadro As meninas, do espanhol Diego Velázquez, é um dos mais desafiadores da história da arte. Embora retrate a cena comum de um aposento real, sua complexidade se configura através da dinâmica com que o artista manipula a perspectiva de quem o observa.

Velázquez produz um efeito elíptico, no qual o jogo entre realidade e ilusão atribui, ao desenho estático, uma sensação de movimento. Isso ocorre por conta da posição e da inteiração entre as pessoas na tela, e, sobretudo, pelo reflexo do próprio pintor ao fundo, simulando o ângulo de quem está sendo pintado.

Três séculos e meio depois, estudos acadêmicos e teorias danbrownianas apontam para outros enigmas e possibilidades visuais, tornando a obra um plano em que o artifício do singelo oculta um sistema intricado de códigos.

Histórias mínimas, do catarinense Jonatan Silva, repercute esse mesmo método na tessitura de seus micro relatos. São 21 prosas ficcionais que, a despeito da concisão do formato, inflam seus conteúdos para além dos limites paginados, num plasma de subtextos e significados que dialogam com o registro histórico, o cinema e a literatura.

O fator pictórico também influencia na engenharia do corpo narrativo, que não se aduna ao caráter sumário do gênero, preenchendo-se de composições visuais e multiplicidade de interpretações, ao trafegar entre o concreto e o abstrato, o real e o imaginário, a lâmina e a úlcera.

Embora o volume não priorize a coesão temática, determinados assuntos alimentam uma parecência argumental, entre os quais a miséria, o abismo moral, a guerra e uma febre distópica que não acomete o mundo, mas a uma derrotista visão de mundo. Naturalmente, Kafka e Beckett despontam como grandes influências.

Outra transgressão ocorre na desenvoltura da linguagem, que evita as frases enxutas e os cortes secos em favor de uma expansão de enredo dentro de um fundo sensorial, psicológico, filosófico. “A flor” explora a imprecisão do tratamento metafórico ao dar voz a uma planta que vive em meio ao lixo. “Lázaro” replica o procedimento na materialização da culpa num pedaço de vidro que um homem, sobrevivente de um acidente de carro, carrega fincado na superfície do olho.

Muitas vezes, o título é a chave de entendimento do texto. “Inferno” se constrói por meio do diálogo entre um casal diante de uma caverna escura e malcheirosa, pressupondo uma situação nunca mencionada. “Um homem feliz” trata da negociação de um relógio, subvertendo a ideia de quem realmente ficaria contente com a compra.

Em outros casos, Silva se vale de uma articulação entre intertexto e livre inspiração, de modo a dar forma a narrativas autorreferenciais. “Neve” parece pegar emprestado o personagem Joseph Walser, do português Gonçalo M. Tavares, cujo estilo de escrita se projeta nos relatos densos e radicais, em especial os que abordam o cinzento entre absurdo e lógica reinante em estados bélicos.

Em entrevista a BBC, a especialista em artes Andrea Imaginario afirmou que, mais que o mero retrato de algo, As meninas, de Velázquez, “é a elaboração de um conceito extremamente complexo, um conceito literário”. Histórias mínimas inverte tal conceito, compilando cenas que, através da promoção de seu componente imagético, exploram o sistema de ruínas que envolvem a condição humana.

 

 

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Livro: Histórias mínimas

Editora: Kafka

Avaliação: Bom

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