Um catálogo de mazelas

As narrativas de O sêmen do rinoceronte branco, de Cinthia Kriemler, armam-se a partir de um paradoxo de gênero. Se por um lado se estruturam a partir da densidade literária do conto, por outro se ocupam de temáticas guiadas pela experiência do observado em seu tempo, própria da crônica.

Há uma procura sensível pelo zeitgeist no exercício de composição, recorrentemente visto no espaço ambivalente da imaginação e da informação jornalística. Mesmo os relatos marcados pela subjetividade se enredam em relatos objetivos, extraindo, desse ambiente íntimo, uma abrangência social, um retrato de conhecimento coletivo.

Vide o texto que empresta nome ao livro. Tal qual o folheio de um catálogo de mazelas, a leitura se inicia no Quênia, com a morte do último rinoceronte branco, passando pela Nigéria, quando centenas de meninas são sequestradas e estupradas por fundamentalistas islâmicos, até chegar ao Brasil, com suas crianças assassinadas por balas perdidas.

Por trás do modelo estrutural do tabloide, a autora articula as pontes possíveis pela ficção, estabelecendo uma analogia entre o extermínio deliberado e a ação de um deus de calça, inseminando pelo mundo aquilo que foi fruto de sua destruição.

“As três Marias” segue o mesmo método, transferindo a amplitude continental para o confinado da instituição familiar. Três irmãs abusadas pelo mesmo homem que deveria protegê-las ao invés de provocar a extinção da infância, a corrupção total da inocência.

Mulheres e crianças são as principais vítimas de maldade. “Não é” ressoa o grito de uma mãe negando o destino brutal do filho. “O menino” contempla uma criança perambulando pelas ruas, drogada, desabitada feito um morto-vivo contra o qual se calibra o olhar para não ver.

Kriemler se vale de frases bem marcadas, curtas e incisivas, que asseguram o impacto da escrita, mesmo quando a dinâmica subverte a intensidade num tratamento lírico. Nesses casos, ganham dimensão estados de consciências, sempre abalados por tipos de crueldade oriundas de dramas pessoais ou da mão covarde e negligente do Estado.

“Chiaroscuro” trata de racismo, violência policial e perpetuação da tragédia. “Vigília” examina intimamente uma senhora estática na varanda, faminta e abandonada, à mercê do tempo que passa e, sem que ninguém veja (ou se importe), arrasta a vida.

O foco central é sobre o marginalizado ou sobre quem vive à margem da própria existência. Mulheres que se prostituem, que se calam diante da agressão doméstica, que transitam na borda de abismos psicológicos e sociais, que botam em risco a própria saúde em prol de marido e filhos.

Essas vozes verossímeis são a força do livro, que nunca se escora em simbolismos ou em subentendimentos. Tudo é gráfico, duro e feroz feito a vida, feito a realidade que nos assalta com seus espantos, sua desumanidade, sua inclemência, sua normalização da morte.

Os textos de Kriemler são crônicas do Brasil atual, um país norteado por um pensamento autoritário, preconceituoso, fascista, machista, miliciano.

 

 

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Livro: O sêmen do rinoceronte branco

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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