Os favos da ruína

O ano é 1999. Sofia, então com 14 anos, ajuda a mãe a recolher as sobras da festinha de 11 anos de sua irmã Aline. De repente, elas se dão conta que a aniversariante desapareceu. Sofia procura dentro de casa, pelo jardim e, quando sai à rua, avista a irmã dobrando a esquina de mãos dadas com o tio.

Nada é dito, mas a menina sabe o que aconteceu, pois ela passou pela mesma situação por anos. É uma cena forte, que resulta num combate e no riso escarnecido de quem sabe que o silêncio da fragilidade e da vergonha da vítima irá protegê-lo de qualquer consequência de seus atos.

Quinze anos depois, Sofia trocou Tenente Portela, no interior do Rio Grande do Sul, pelo Rio de Janeiro, mas o passado continua a assombrá-la com mesma ou maior virilidade. Numa noite então, quando outra vez é tomada de assalto por uma violência inominável, decide por um basta e se vingar do homem que deu origem a seus demônios, de alguma forma também atacando a todos os outros que participaram de suas proliferações.

É a partir dessas demarcações temporais que, ainda no prólogo, a gaúcha Morgana Kretzmann traça o percurso da trama de Ao pó, seu romance de estreia. Embora estruturado a partir de fragmentos que se alternam por três momentos da vida da protagonista, o enredo segue uma dinâmica tradicional de apresentar o conflito central, desenvolvê-lo por vias que parecem apontar para relativa autonomia, até se voltar para o drama primado e encerrar-se tal o fechamento de um círculo.

Meses após o fatídico aniversário de 11 anos da irmã, Sofia decide ir embora, apesar das súplicas de Aline. Cinco anos depois, faz parte de um grupo de teatro que atua na zona Sul do Rio, numa montagem de certa expressão. Ali conhece o dramaturgo Carlos Ilhas, com quem engata um relacionamento de altos e baixos, sobretudo por conta do comportamento promíscuo do homem, que a trai e a menospreza publicamente num circuito que testa a vulnerabilidade emocional da protagonista.

Num desses rompantes, então, decide avançar num encontro às cegas, e o resultado é catastrófico, expondo-a a um escândalo que, desde menina, mantinha secreto.

Morgana acerta em cheio na verossimilhança de sua personagem, imprimindo, por meio da modulação vocal, suas turbulências externas e internas. O diálogos são fluídos, intuitivos, e a narração envolvente, ao ponto de flertar com a tensão do suspense no encadeamento de cenas que nunca deixam claro qual será o próximo passo.

O processo de composição tem o aspecto da história mental, contudo se guia pelo andamento da ação focada nas interações entre pessoas. Quando se volta a si, a história cede espaço para trechos soltos e ambíguos, que não se sabem memórias, sonhos, delírios ou interpretações da realidade pelo filtro da dramaturgia.

Aliás, por meio deste mesmo conduto, a autora acessa uma segunda camada em que a ficção e a crítica social se retroalimentam. A história de Sofia representa um grito, uma denúncia contra os abusos físicos e psicológicos que, guardados em silêncio pela vítima, inevitavelmente se desdobram em tragédia. Morgana mostra que, mesmo que ocorra qualquer tipo de revide ou de redenção, o efeito da violência leva a personalidade aos favos da ruína.

Ao pó é um livro consciente de seu drama, plausível e exclamativo. Ainda que não me agrade em nada o argumento do “lugar de fala”, a narrativa tem um impacto para a mulher que eu, mamífero masculino, nunca serei capaz de experimentar.

 

 

***

 

 

Livro: Ao pó

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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