Olhar amargurado sobre o duplo

Depois de velha, comecei a pintar. Velhos fazem coisas para enganar a morte, anuncia a narradora de Cara Marfiza,, romance do paulista Paulo Salvetti. Viúva, com três filhos criados e a casa só para si, a personagem preenche o tempo com atividades físicas e ocupações domésticas, até que um telefonema inesperado desarranja sua rotina.

É sua irmã Marfiza, com quem não fala há 10 anos. Do outro lado da linha, o elo distante alerta que um sonho vem lhe perseguindo por dias. Nele, a narradora pinta um quadro onde as duas estão juntas como são agora. Daí aconselha a irmã a satisfazer o presságio, produzindo a tela antes que uma delas morra.

Diante do extraordinário e do abrupto da situação, a protagonista tenta até se agarrar à normalidade, mas o abalo da ligação irá desatar um fluxo de consciência por uma década contido, transfundindo o rio presente dos fatos com entranças memorialistas, que irão ressoar ao mesmo tempo que dar forma ao enredo.

Será um longo monólogo mostrado em etapas embora cronologicamente linear, aos moldes de uma história mental que, por conta dessas fissuras entre o tempo atual e o passado, esgarça-se a ponto de permitir a incidência de outras vozes, mesclando exercício de alteridade e drama de costumes.

Marfiza é a pessoa de interesse. A partir da relação com ela, a narradora irá revisitar sua vida, do nascimento da irmã (meses mais nova) até o momento em que sepultou o marido. Não se trata, porém, de um vínculo desarticulado pelo atrito entre amor e ódio, e sim por algo mais profundo e intenso, como a análise de uma duplicidade malquista, ainda que incontornável. Marfiza me perturbou desde a infância, ela diz. E seu tateio pela memória tem por objetivo justificar tal assertiva.

Ela retoma a época de menina, quando a irmã era assombrada por premonições. Seu pai era um curandeiro, dono de um terreiro espírita, e as manifestações sobrenaturais serviam para recuperar a saúde do corpo e da alma. Contudo não foi capaz de sanar uma condição estranha de Marfiza que, depois de um incidente, perdeu a visão das cores.

Passava a adolescência e a debilidade a impediu de ir ao baile com Adelmino, que trabalhava na mesma fábrica de cabides. Acabou indo a irmã mais velha, com o seu vestido, e terminou a noite também com seu par. Namoraram, engravidaram, tiveram de casar. E esse foi o primeiro baque na relação das duas.

A narradora conta que saiu de casa para um quarto de pensão, e acabou conhecendo cedo demais o lado amargo do casamento. Ela própria se perdeu em seus fantasmas e desilusões, entrando num colapso emocional amparado por Marfiza que, mesmo de longe, reconfortava-a com leituras afetivas e cartas de ânimo. Nada impedirá o meu amor e os meus bons desejos para você e para sua felicidade. Te amo tanto que me dá até vontade de ser você às vezes, escreve.

Mas, afinal, se existia tão sólida fraternidade e devoção, o que aconteceu para que se distanciassem? Qual o motivo de Marfiza despertar tamanha hostilidade?

Salvetti usa tal mistério como eixo magnético, porém nunca centralizado. A trama se desloca em alguns trechos, concentra-se em personagens secundários (seus comportamentos, suas participações sociais), deixando lacunas, falhas de uma mente agora comprometida pela idade. Ao longo da narração, entremostra-se um argumento de que é, no mínimo, motivo de suspeita um relato sobre o outro, quando se tem apenas o ponto de vista de quem conta.

Realmente, talvez pelo fato de o autor também atuar como ator, flana pelo texto um espectro dramatúrgico, reincidindo rubricas e posturas de discurso que colocam o leitor na posição de espectador dos acontecimentos, conduzidos num modo contemplativo.

Com uma escrita macia e transições suaves, Cara Marfiza, é sobre o tempo que escorre e aquele que se tenta congelar numa pintura, num retrato que, sob a exposição das pulsões mais íntimas, é capaz de capturar toda uma experiência de vida que se duplica para, em algum fim, unificar-se.

 

 

***

 

 

Livro: Cara Marfiza,

Editora: Reformatório

Avaliação: Bom

 

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