A maternidade segundo A.H.

Isolada numa fazenda na França às margens de uma floresta, uma mulher presencia seu corpo se deteriorar. Não o corpo que habita, e sim aquele não lhe cabe mais depois que se tornou mãe. Ela luta contra, pede socorro, enlouquece, mas não há como evitar que a compleição de outrora caia em frangalhos. Não há nada que possa fazer contra os efeitos da maternidade. Ser mãe é um veneno, uma morte. Ser mãe apodrece quem ela era.

Tudo é muito sórdido em Morra, amor, novela celebrada da argentina Ariana Harwicz. A região, a casa, as pessoas, as palavras. Logo nas primeiras frases, a protagonista-narradora descreve um ambiente rústico e asqueroso. Mobílias e roupas encardidas, lenhas espalhadas, insetos, terra. O marido não para de fumar e urina no quintal, ao invés de usar a privada. Da mesma forma, um cão faz as necessidades onde bem entender. Ninguém limpa, ela tem com o que mais se ocupar.

Precisa cuidar do bebê que lhe suga o peito, o tempo, a vida. Quando não está mamando, chora porque está sujo, chora porque está febril. Em dado momento, a mulher afirma que está há horas com vontade de ir ao banheiro, mas o filho não deixa. Quando o marido vai trabalhar, a solidão e a falta de assistência tornam o estado das coisas perigoso.

A narradora é tomada pelo desejo de matar o filho. Fantasia algumas maneiras, entre as quais esfaqueamento e asfixia. Ao buscar outro ponto de concentração, reflete sobre a relação dos sogros e como o casamento tornam as pessoas amargas, miseráveis. Como seu próprio casamento foi a posse de uma maldição, um suicídio sem passagem.

A recorrência desses pensamentos negativos, então, vai demolindo sua base de sanidade e a colocando à mercê de manifestações contundentes, entre pesadelos e delírios, que a retrocede a uma condição primitiva, aos domínios de um cervo com a qual é aliciada a se vincular e embrenhar pelos confins da mata.

Harwicz costura um longo monólogo repartido em breves capítulos, caracterizado por um fluxo de consciência intenso, frenético, descompassado, no qual uma mulher submersa num estado de depressão pós-parto é atacada por toda uma legião de demônios pessoais.

Ela tem aversão o filho, pois a chegada do bebê arrefeceu a chama do desejo que o marido sentia por ela e a imagem florescente que tinha de si. Agora dormem em camas separadas, e ela vive sem asseio, cabelo seboso, coberta de andrajos. Entra em paranoia, maquinando traições, e se masturba de um jeito agressivo, quase doentio.

Por outro lado, recusa o papel de dona de casa, da esposa que espera com um sorriso tenro o marido voltar do trabalho, vislumbrando uma liberdade compulsória sempre por vias condenáveis, como incendiar a própria casa. Esse comportamento errático é a marca do texto, conduzido por uma oralidade crua, amarescente, gutural.

À medida que se mete mais fundo nos labirintos da loucura, a prosa se encharca de um tratamento metafórico combinado a uma forte carga sinestésica. Ruídos, odores, ilustrações de ambientes selvagens e de animais vão compondo um painel vigoroso, grotesco, e incorporando texturas a um ambiente claustrofóbico.

A experiência da leitura atinge uma modulação de frequência surrealista, repercute em planos astrais, todavia também está aí o pecadilho do livro em incorrer das mesmas batidas narrativas, criando um trecho desgastante, em que volta a surrar a concepção edulcorada da maternidade, premissa que já tinha ficado clara nos capítulos iniciais.

Leva pouco tempo, felizmente, e a sequência traz uma virada que põe em xeque o entendimento de certos termos, como a apatia do marido em meio ao caos, subvertendo a perspectiva que configurou o enredo para a abertura de interpretações, de olhar sobre outro ângulo dentro dessa história mental.

Por conta da estrutura e da motivação temática, o texto de Harwicz foi comparado a A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Sim, é uma boa base, no entanto Morra, amor é mais visceral, mais caustico, mais incômodo. A narradora aqui comeria algo maior. Um cervo, talvez. Um filho.

 

 

***

 

 

Livro: Morra, amor

Editora: Instante

Avaliação: Bom

2 comentários sobre “A maternidade segundo A.H.

  1. Gosto dos livros de mulheres que discutem a maternidade pelo viés incomum (e mais comum que se pode pensar na vida real). Também me incomoda quando o autor já deixou algo claro e fica voltando, explicitando o já explícito. Mas a depender do tema, a gente até vai na paciência. Vou ler.

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    1. o livro “O Peso do Pássaro Morto”, prosa poética com a qual a Aline Bei ganhou o Prêmio Sesc de Literatura, também explora a maternidade de forma semelhante, contrária às idealizações em torno do feminino. Vale a pena a leitura.

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